O habitat seguro de minha infância foi o quintal. Eu fugia de estranhos, como o diabo foge da cruz. Lembro-me que o particular mundo do quintal, era minha confortável fortaleza. Era onde eu encontrava aconchego, segurança, proteção e liberdade. Além do quintal tudo era desconhecido, improvável, inimaginável, assustador e ameaçador. É bem verdade que, além do quintal, eu imaginava existir uma realidade desafiadora, desbravadora e transformadora, embora aquele pensamento era muito vago para minha tenra idade.

De certa forma, eu pressentia que pudesse haver um preço a ser pago se saísse do quintal, como meio de vencer a minha exacerbada timidez. Mas também pressentia haver um preço a ser pago em não sair dele. Para mim, guri mateiro, além do quintal, nem mesmo as borboletas ‘cor de fogo’, ‘gravatinhas’ e ‘amarelonas’ eram as mesmas. Aos meus olhos de garoto observador, retraído, desconfiado, que nunca enfiara um calçado nos pés, lá fora elas se pareciam diferentes e ariscas, pois lhe faltavam as preferidas flores zabumbas do jardim.

Na laranjeira do quintal, o sabiá também não era o mesmo lá do mato. E o canarinho da telha, era dentro do quintal que encontrava as telhas do paiol para seu pouso e repouso. Dentro do quintal o mundo era nítido. Havia nele o terreiro grande, não dos meus sacros orixás, mas do brincar, do sonhar e do ‘fazer arte.’ Eu nasci em 1960, e em meus 6 anos de idade, ainda não via o portão como passagem de ida, tampouco, uma fronteira transponível, mas, como um cadeado de minha alma retraída.

Entretanto, ocasionalmente, lampejos de imaginação me mostravam o destino tirando-me de dentro do quintal. Certa feita, uma pitada dessa imaginação se tornou realidade. Embora o dia tenha amanhecido chuvoso, ao entardecer estiara. Papai, ao voltar do trabalho, anunciou uma grande surpresa à família: “recebi o pagamento, por isso, vamos todos ao circo, hoje as crianças não pagam” - proclamou. Eufóricos, todos partimos descalços para aquela mágica aventura. A noite era estrelada, fazia uma lua cheia de um vermelho acobreado, iluminando a estrada enlameada.

Os vaga-lumes, nas curvas mais escuras da estrada, mais pareciam o céu acompanhando aquela inédita, inesquecível e feliz noite. A ansiedade aumentava a cada passo. Aos poucos eu ia me dando conta de que, além de meu microcosmo, havia um mundo que me esperava, sem que eu nunca imaginasse sua dimensão. Eu levarei aquela noite, e o mundo encantado do circo, para minha vida.