Se você iniciou a leitura deste texto, instigado pelo título, é porque, como assíduo leitor, você também lê jornais. Logo, você não se insere na grande maioria de brasileiros cuja cultura é mais oral/auditiva do que textual e, por assim ser, fala e escreve errado. A rotina diária das pessoas conectadas com o mundo inicia-se pela leitura de um jornal acompanhada de um bom café. Se você se identificou com este ritual é porque nutre o prazer em se saciar de informações advindas dos mais diversos canais e fontes, o que o diferencia do padrão comum.

Algo que tem me aguçado a curiosidade é buscar entender o perfil do leitor de jornais. Pesquisas tem nos comprovado que há leitores jovens que preferem a leitura impressa, como há adultos e terceira idade se identificando com a leitura digital. Entretanto, independentemente de idade, há os que não abrem mão das duas plataformas. Tenho procurado identificar justamente nesse público multimeios, quais os estímulos motivacionais que levam às diferentes plataformas.

Alguns testemunhos de leitores de papel convergem para uma mesma direção, apontando características peculiares: admitem que, além da credibilidade, autenticidade, formalidade e praticidade o jornal impresso proporciona uma pauta selecionada, organizada, diversificada e agrupada por temas, oferecendo um percurso orientativo para a absorção do conteúdo e, sobretudo, a sensação de se dispor de um ‘todo’ diante dos olhos.

Mesmo que o interesse seja por uma determinada editoria, o simples ato de folheá-lo levará, naturalmente, a todas as editorias. Poderíamos considerar então, que nessa plataforma o leitor é apresentado ao conteúdo. É só nesta condição que, involuntariamente, ele poderá ser surpreendido com inesperada matéria capaz até de mudar sua vida. Enfim, neste meio ele terá a sensação de ver a vida passando diante de seus olhos.

Na plataforma digital, por sua vez, a relação do leitor com o conteúdo assume outra dinâmica. Não menos importante que a impressa, neste ambiente o conteúdo é informal, sintético, imediato, menos analítico, porém, mais interativo. O que ocorre aqui, como antítese ao impresso, é que o leitor já não é apresentado ao conteúdo. Ele vai em busca sem rumo sugerido.

Portanto, no contexto do jornalismo, não consigo ver uma plataforma substituindo a outra. Elas são complementares, cada qual com suas características. Por isso, me soa engodo o argumento: ‘não leio mais o impresso porque tenho tudo no online’. O leitor atento bem sabe que não há essa dicotomia.

Os atuais e críticos consumidores de informação, numa época onde tudo é conteúdo, anseiam por algo diferenciado e exclusivo. Por essa perspectiva, de forma figurada, vejo a plataforma digital como ‘um mar aberto’ e a impressa como ‘uma praia particular’.