Convencionou-se, pela ordem natural do pensamento humano, que a velhice vem com a idade. Acredita-se que ela é decorrente da quantidade de tempo vivido. Renego essa lógica cartesiana. Ela não me diz nada. Me apego na condição de que o tempo é relativo e a vida é efêmera. Portanto, caberá somente a mim decidir se prefiro tempo de vida ou vida no tempo.

Claro que não precisa ser com o radicalismo do Lobão, de que “mais vale dez anos a mil do que mil anos a dez”. Quero vida no tempo, e na dimensão do tempo que o tempo tem. Se isso lhe confundiu a cabeça, pode ser sinal de um bom número de anos já vividos. É só uma suposição.
É fácil identificar os que priorizam tempo de vida, ou seja, os que contam os anos. Esses se deixam trair por contradições como: se morreu com 70, ‘foi cedo’. Se está vivo com 70, ‘como envelheceu essa criatura’.

Desses emanam, também, aquelas clássicas: você já está aposentado? Já retirou sua carteirinha de idoso? Quem é seu geriatra? Me diz, como anda sua próstata? Quem é seu urologista? Cá entre nós, ele toca piano? Ah, e por falar nisso, você já experimentou aquele novo ‘azulzinho’ da marca ‘head up’? Você foi ao velório do nosso brother das pescarias que partiu para o andar de cima na semana passada? Ele tinha 75, descansou. Ãhn? Quem morre não pode descansar. Só descansa quem está vivo. A propósito, se há duas expressões de ‘morrer’ ditas em velórios, são elas: ‘descansou’ e ‘parabéns’. Deveriam ser enterradas.

Por outro lado, é igualmente fácil identificar os que priorizam vida no tempo. Desses emanam os ‘mais’ e os ‘menos’ existenciais não quantificáveis, mas, perceptíveis na intensidade: Mais sonhos e menos razão; mais desprendimento e menos obrigação; mais sensações inéditas e menos conformismo; mais ousadia e menos formalismo; mais silêncio e menos justificativas; mais sentido e menos padrão; mais tempo para si e menos tempo para o mundo trivial. Mais mares para singrar e menos cais para se prender; enfim, mais plenitude e menos representação.

Não cabe dizer que esses emplacaram a segunda metade da vida, mas, que alcançaram a segunda juventude. Eles encontraram aquela liberdade antes nunca experimentada. Agora até mandam os deuses terrenos para o inferno sem remorso. Não mudaram a música, apenas o tom. Sabem que a qualidade e autonomia desse voo, requer bagagem sem peso. Então, se livram das tralhas acumuladas na primeira juventude: rancores, ego, ostentação, intolerância, preconceitos, vícios, vinganças, e planam leves e sem pressa. A pressa agora é de vida no tempo. Com eles só a bagagem da experiência, prazer, sabedoria e anseio pelo novo.

Então, não me especule se sou idoso. Idoso é teu passado, eu só tenho sessenta.