O mundo assistiu perplexo, nesta terça-feira (24/05), o resultado de mais um insano e premeditado massacre, agora, efetuado por Salvador Ramos, de 18 anos, em uma escola primária no Texas, matando 19 crianças e duas professoras. De antemão quero salientar que isso não é um julgamento sobre os Estados Unidos, até porque admiro aquela nação. Meu propósito é discorrer sobre uma de suas preocupantes mazelas, os recorrentes tiroteios em escolas. Registros dão conta de que somente neste ano, 27 tiroteios em escolas assassinaram 67 pessoas.

Esse fenômeno perturbador, segundo estudos, tem início em 1949, em Nova Jersey, quando um dos primeiros ataques a tiros, efetuado por um ex-militar, de nome Howard Unruh, matou 13 pessoas de sua vizinhança. A partir de lá, os casos só aumentaram e continuam aumentando. Atualmente, a banalização dos massacres assumiu um status de competição, seguindo a lógica dos vândalos pichadores dos grandes centros urbanos, que vão se graduando e ganhando destaque na medida que atingem os lugares mais desafiadores e inusitados.

Os atiradores buscam produtividade na matança e, por conseguinte, repercussão e notoriedade. Uma forma doentia de buscar a glória. Então, a tendência é de que o próximo, e certo massacre, seja mais letal e devastador. Também não pretendo entrar no mérito do armamento ou desarmamento, pois, entendo que a violência não é produzida pela arma, mas, antes disso, pelo comportamento, cultura e atitude do detentor. As causas desses massacres em série são, em essência, complexas e estão muito além do fato de se dispor ou não de uma arma. Portanto, não vejo sentido em insistir na superficial retórica armar ou desarmar.

Antes disso, como tenho sustentado, precisamos encontrar algumas respostas capitais: será que o desenvolvimento científico e tecnológico da moderna sociedade, tem melhorado a qualidade de vida das pessoas, extinguindo seu mal-estar existencial? Será que essa mesma sociedade, tão suprida de ‘meios’ para viver, está suficientemente provida de ‘motivos’? Será que mazelas como desigualdade, crise moral, corrupção, guerras, terrorismo, desemprego, fome, insegurança, xenofobia, homofobia, extremismos, inoperância da lei, educação deficiente..., adversidades estas, geradoras de tantas paranoias e insanidades, não são muito mais letais que as armas?

Por isso, minha maior preocupação recai sobre o risco de disseminação desse fenômeno americano para sociedades mais vulneráveis. Vejamos: Por lá, há o poderoso lobby da NRA (National Rifle Association), conjugado com a secular cultura da arma, porém, há muitos livros. Já, por aqui, temos muitas armas e poucos livros. Logo, não se pode ignorar o potencial risco dos jovens daqui, serem influenciados pela “geração tiroteio” de lá.