O propósito essencial da existência humana é a felicidade. Enquanto crianças, somos felizes naturalmente, sem termos consciência disso, ou sem procurarmos o caminho dela. Quando nos tornamos adultos, temos consciência da felicidade, nos perdemos dentre tantos caminhos para busca-la, e raramente nos apropriamos dela com plenitude. Nos maquiamos de felizes para os outros. Como tontos, acabamos voltando ao ponto de partida, nos dando conta de que Buda estava certo em dizer que não existe um caminho para a felicidade, pois a felicidade é o caminho.

Não há, também, um conceito acabado. Ela vai se transmutando com o tempo. Na Antiguidade, a fonte da felicidade pairava na moralidade, ou seja, era digna ao homem virtuoso. Já não faz sentido aos nossos tempos, pois hoje, o homem mais virtuoso é o que mais sofre, além de ser uma minoria. Para o mais feio e chato dos filósofos gregos, Sócrates, a felicidade não se encontrava na busca por mais, mas sim, no desenvolvimento da capacidade para desfrutar de menos. Não se coaduna com nossa moderna sociedade materialista e supérfluo consumista.

Ao menos por aqui, percebo que minimalismo remete à pobreza. Vamos tentar Nietzsche, o niilista bigodudo: para ele a felicidade dependia do controle que o homem tinha sobre o que o rodeava. Também já não vale para a atualidade, pois que controle se pode ter sobre o mundo cibernético regido pela mentira e superficialidade? Ou ainda, que auto controle posso ter diante de alguém que recém almoçou do meu lado e passa a conversar comigo com um palito na boca? Ou do sujeito no ambiente de trabalho que garimpa cera do ouvido com palito e depois cheira?

Sem esquecer o lorpa que estaciona seu veículo na calçada, ciclofaixa ou vagas de idosos e cadeirantes? Minha amiga e escritora Sheila Prates, me recomenda “filtrar”. De qualquer forma, desculpe Nietzsche, mas tá vencida a validade de seu aforismo. Recorremos então, ao pensamento da atualidade. Gosto da ‘loucura lucida’ do Professor e filósofo Clóvis de Barros Filho. Sustenta ele que a felicidade é aquele instante de vida que vale a pena ser vivido. É autoconhecimento, gratidão e propósito. É estar pleno no aqui e no agora.

Me parece um postulado mais conectado com nossa realidade, porém, um tanto desafiador. Como atingir tudo isso? Se for um desafio, então não será felicidade. Entretanto, ela pode ser aprendida sem esforço. Requer apenas sensibilidade para com o mundo. Para mim, não saber defini-la me faz feliz. Sou um observador de crianças.