A pandemia que assola o mundo não está somente testando nosso potencial de humanidade, mas, sobretudo, demonstrando que estamos perdendo o senso trágico. Lhe pareceu estranho? Mas é estranho mesmo. Não me refiro a tragédia como qualificação da pandemia em si. A reflexão que quero propor aqui, refere-se ao fato de estarmos perdendo a crença na importância do indivíduo. A estatística diária da morte está nos causando uma espécie de hipnose mórbida.

Nessa condição, a razão e a emoção já não se identificam. Elas se tornam homogêneas. Todos passamos a fazer as perguntas erradas. Quem morreu hoje? Quem está internado? Quantos já morreram este mês? Quantos morrerão amanhã? Aquele nem tinha comorbidades. Aquela era ainda jovem. Portanto, tenho observado essa perda do senso trágico pela falência do significado da vida humana. Conhecer os números, desde que não envolvam meus entes ou amigos, é como se fosse uma satisfação diária.

Ilustrarei com um exemplo que me ocorreu no decorrer desta semana: fui surpreendido com uma reclamação de uma leitora. Protestava que o espaço obituário do jornal era ínfimo. “Com tanta gente morrendo, o jornal deveria ter, no mínimo duas páginas de obituário por dia”, justificava ela. “Portanto, quero cancelar o jornal por falta de obituário”, concluiu. Enquanto eu argumentava que hoje nem todas as famílias autorizam publicação, matutava onde poderia estar o sentido daquela necessidade mórbida.

Alguns dirão que não passa de mera curiosidade em saber quem, da geração, partiu na sua frente. Particularmente, encontro-me no 1º terço do segundo tempo do jogo existencial. Não leio e nunca lerei obituário. Quero ler vida até o final dela. Me calço na ideia de que há os que contam tempo de vida e os que contam vida no tempo. Eu pertenço ao segundo time, e os que jogam comigo, também estão percebendo que a pandemia deixou mais evidente essa perda do senso trágico por parte da sociedade.

A morte se tornou banal, convertida em gráfico estatístico politizado. Por essa perspectiva, morrer já não é a grande tragédia humana, viver é que é. Resisto a essa funesta lógica. Quero viver, mas sentindo que cada desconhecido que se vai, leva um pouquinho de mim. Assim, vivo em abundância.