O último café com bobagens foi uma verdadeira viagem a esmo. Vagamos, sem eira nem beira, pelo tema mais em cheque, ou em choque, do momento. A nossa combalida democracia. Iniciei o aquecimento assim: hoje temos um país de dois lados, cujas cartas são dadas por onde não há lado. Então, para o lado de cá, os desprovidos de lados são do lado de lá, e para o lado de lá, eles são do lado de cá. Os dois lados reivindicam a mesma coisa, a democracia, mas com narrativas (palavra da moda) diferentes, sem saber, na essência, o que estão reivindicando.

Até porque, reivindicar democracia não é bem assim. Democracia não é qualquer coisa. Ela é muita coisa, embora, no Brasil seja muita coisa de coisa alguma. Fundamente teu ponto de vista, por favor, sugeriu-me o brother. Claro, você prefere uma fundamentação clássica ou contemporânea? Clássica, disse ele. Pois bem, do pouco que absorvi de Montesquieu, posso lhe dizer que não é necessária muita probidade para que qualquer governo monárquico ou despótico se sustente. Bastam a força das leis num braço e a força bélica no outro, e tudo se resolve e se contém.

Mas, num Estado Democrático de Direito, é necessária uma mola a mais, que venha a ser a ‘virtude.’ Não é a virtude no sentido moral, mas entendida como virtude política e cívica, a do amor à pátria e a não corrupção. E isso valendo para a classe política e para o cidadão comum viu? Para esse pensador, a democracia só poderia existir se houvesse virtude que tendesse para o bem e para o correto, e que a lei funcionasse para o abastado tanto quanto para o menos favorecido. Percebe agora como estamos distantes da verdadeira democracia?

Mas Nelson, retrucou ele, pra mim democracia é liberdade e o resto é papo furado. Não é tão determinista assim meu brother. O meu pensador também diz que é preciso ter bem claro que liberdade é o direito de fazer tudo o que a lei permite. Ou seja, se você pudesse fazer o que a lei proíbe, você não teria mais liberdade, porque os outros também teriam tal poder, captou? Sim, faz sentido. Então, indagou-me por fim: como você avalia a nossa democracia? Bem, penso que o melhor dela é sua capacidade de resistir a ‘guapecada’ do lado de lá e do lado de cá.