O Carnaval já despontou na ‘avenida Brasil’. ‘Desfrute de seu direito de detestar o Carnaval, mas respeite o meu de aprecia-lo’. ‘Sirva-se de seu direito de seguir na ala fiel imaculada, mas respeite meu bloco da alegria’. ‘Exerça seu direito de ajudar as vítimas das tragédias, mas respeite o direito de milhares de famílias dependerem do Carnaval para a subsistência’.

Esses foram alguns dos incontáveis argumentos reportados à campanha das redes sociais sugerindo, em tom de protesto, acabar com o Carnaval e direcionar os recursos às recentes tragédias.

De antemão reconheço que somos uma nação muito religiosa, mas me surpreende o contingente de ‘santos do pau oco’ em nosso meio. A convicção e retórica da ala fiel imaculada insiste em evidenciar a origem pagã do Carnaval, cunhando pechas como orgia, depravação, malandragem e promiscuidade. Oras, sejamos coerentes, isso não é exclusividade do Carnaval.

Não se encontram motivos, argumentos, recursos legais ou possibilidades políticas, capazes de extinguir o Carnaval. Justifico sustentando que não há como extinguir canto, dança, imaginação, sonho, fantasia, alegria e sensualidade. Tampouco, não há como reprimir o instinto natural humano da saudável subversão de papéis sociais. São elementos intrínsecos ao ser social, independentemente da cultura de cada sociedade. Independentemente do número de tragédias que possam continuar acontecendo.

Antes de esbravejar pela extinção, entenda primeiro que a híbrida cultura brasileira, enquanto legado da colonização, forjou e institucionalizou, historicamente, o fenômeno Carnaval como uma de suas principais manifestações. O Carnaval, em sua essência, representa um campo de polissemia social com sentido extra racional, onde a única realidade é a fantasia, em que pese o trocadilho.

Logo, quer aprecie ou não, você traz consigo um pouco do Carnaval como arquétipo de sua identidade cultural. Então, seja elegante, se não gosta, fique em casa. Particularmente, vejo no Carnaval o meio mais didático e democrático de transmitir história e cultura a um povo tão carente de tais conhecimentos.

Portanto, também protesto. Não deverá ser assim. As faturas das tragédias não poderão ser quitadas pela Sapucaí carioca, tampouco pela Anhembi paulista; Nego Quirido catarinense; trios elétricos do Axé e Olodum baianos; Boi-bumbá amazonense; bonecos e Frevos pernambucanos; ou Bumba-meu-boi maranhense.

Essas entidades são “cases” de organização, gestão, geração de empregos, rendas e alegria. Não poderão ser punidas por isso. Essas faturas pertencem aos gananciosos, irresponsáveis, negligentes, insensatos, praticantes do famigerado ‘jeitinho brasileiro’. Eles que paguem.