As cortinas do palco 2022 vão se abrindo vagarosamente, deixando estampada na plateia estupefata, o semblante atônito diante de uma peça dramática. Figurativamente, contracenando lado a lado os protagonistas: “leis humanas” e “leis naturais,” em fiel representação de seus papéis. Do espaço cênico inferior do palco, inocentes vidas deleitando-se das revigorantes belezas naturais, celebrando vitórias, encontros e superação de um ano pandêmico superado, com projetos e esperanças para um novo ano recém iniciado.

Testemunhamos a dimensão das extremadas fronteiras que há entre as leis dos homens e as leis da natureza. Embora profundamente solidário com as vítimas, ouso afirmar que a tragédia de Capitólio – MG, desse 8 de janeiro, é uma dolorosa prova do quanto ignoramos e desrespeitamos as leis naturais. Fundamentalmente não entendemos que as leis da natureza são perfeitas, justas e implacáveis. Já, as leis dos homens são imperfeitas, dúbias e flexíveis.

O que vimos em Capitólio é resultado da lei humana sendo assim interpreta: se essa colossal rocha se mantém inerte há anos nesse paredão, mesmo com sua evidente e ameaçadora rachadura, não vai ser agora que se desprenderá. Por outro lado, a lei da natureza quer transmitir o seguinte: todo e qualquer paredão, seja qual for a composição rochosa, sofrerá desgaste pela ação química e mecânica da água, das intempéries, de outros agentes e reagentes geológicos, além da própria força da gravidade. Por conseguinte, inevitavelmente cairá.

Então me pergunto: aquilo foi um acidente ou uma tragédia? Penso que o desprendimento daquela gigantesca rocha que ceifou 10 vidas, e feriu outras tantas, não foi, em essência, uma tragédia. Foi um bárbaro e ultrajante acidente. A tragédia, como bem representada nos clássicos personagens de Shakespeare, e como bem traduzidas por Nietzsche, reside nas profundezas e arcabouço da condição humana: nesse caso, a negligência, o poder incondicional, a confiança exacerbada e a desconexão com as leis naturais.

Eis onde paira, e o que configura, a tragédia humana materializada no infausto acidente. E tal tragédia se acentua, pela consciência humana de que aquilo poderia ter sido evitado.