Abriram-se, na última quinta-feira (24), as cortinas da 14ª edição do Festival de Música de Santa Catarina (Femusc), que se estenderá até 02 de fevereiro. Como expectador ávido, não me canso de observar que a exímia regência assegura, mais uma vez, a fina sintonia entre a brilhante execução e os limitados recursos orçamentários. Isso só reforça minha convicção de que no universo da música não há limites.

Penso, no entanto, que o desafio maior a ser superado, é de caráter cultural. Significa dizer que, dentro da diversidade de gêneros que caracterizam a música brasileira, a participação erudita, ainda é tímida.

Embora referências célebres como Villa-Lobos e Camargo Guarnieri sejam notórias e determinantes, não se pode ignorar que ainda é pífio o reconhecimento acerca da talentosa e considerável produção desse gênero musical que vêm, bravamente, se revelando em nosso país.

É preciso que se proclame que, embora não tenhamos tradição, estamos avançando sim, e superando grandes desafios. Naturalmente, a dimensão da música erudita, ou de concerto, requer um nível maior de sensibilidade, concentração, reflexão e contemplação, o que demanda necessariamente disciplina e tempo.

Então, como viabilizar essa condição num ambiente de realidade cibernética desvairada, associada a nosso modelo de sociedade líquida e imediatista?

Felizmente Jaraguá do Sul, assimilou a essência do Femusc, tendo esse, por sua vez, já assumido status de maior festival-escola de música da América Latina e um dos mais importantes do mundo.

A meu ver, esse sucesso vem sendo atribuído a dois conjuntos de fatores que não poderão perder cadência:

i) nossa cidade, além de ser “palco” (estrutura e logística), tem se mostrado “execução” (apoio e voluntariado) e “plateia” (acolhimento e participação), nessa grande sinfonia com regência do genial Alex Klein, tendo como spalla uma competente equipe diretiva e colaboradora;

ii) O Femusc é de todos e para todos, ou, como bem sugere seu slogan, é “do mundo todo para o mundo da música”; fundamentado, gerido e orientado sob uma perspectiva cultural, social e econômica. Portanto, é transformador, pois trabalha a educação; é amparador, pois insere-se nos espaços da saúde; é agregador, pois busca a inclusão; é acessível, pois está ao alcance de todos; é contagiante e interativo, pois exprime uma linguagem universal; é economicamente viável, pois gera divisas para a região.

Como resumo da ópera, entendo que sua gênese é democrática e a sustentabilidade desse projeto tem que ser uma missão coletiva. Penso que num momento social onde impera a polarização e intoxicação ideológica, obras dessa grandeza precisam e merecem ser vistas, ouvidas, sentidas, absorvidas e reconhecidas. Valorize, prestigie, apoie, contribua. Isso pois, como bem nos proclama Nietzsche, “sem a música, a vida seria um erro”.