Pesquisas apontam que entre os países latino americanos, excetuando-se o Uruguai, a média de satisfação com a democracia gira em torno de 30%. Não tenho dados momentâneos de nosso país. Precisamos considerar, entretanto, que no Brasil o baixo nível de politização social faz com que a satisfação com a democracia e o senso de patriotismo tenha estreita e imediata relação com o perfil e qualidade do governo.

Um significativo contingente da população que se instrui e forma opinião via WhatsApp, vive a se indagar: será que uma crível ditadura não seria melhor do que uma desacreditada democracia?
Para os mais atentos, o cotidiano das relações sociais responde isso com evidentes sinais.

Vejamos alguns: quando, ao nos mostrarmos neutros, moderados ou tolerantes frente a questões como, política, religião, escola sem partido, racismo, ideologia de gênero, união homoafetiva, pena de morte, tortura e outros estopins, sentimos estarmos assinando um tratado de guerra ou atravessando um ‘corredor polonês’.

Ou quando pessoas próximas a você, até então sadias mental e espiritualmente, passam a expressar posições como: ‘a Espanha se auto aniquilará em 10 anos, por conta de um atual governo ateu’. Ou ainda, quando ouvimos alguém pronunciar que ‘foi o sistema Pinochet’, e somarmos a tudo isso, o descrédito do judiciário enquanto última instância da ética estatal, entre outras sandices, é porquê estamos, diante de um quadro propício para os adeptos esperançosos da ditadura.

Pode-se dizer que o processo se assemelha a um indivíduo, movido a ansiolíticos, que busca, em alguém, motivos para descarregar sua abalada carga emocional. Este perfil, ao se multiplicar, desmantela a coesão social, uma vez que buscará sempre defender, entrincheirado, suas verdades, crenças e valores. São sintomas, embora incipientes, que atentam contra a democracia.
Inquieto com a densidade desse fenômeno, busquei respostas no pai da democracia moderna, Jean-Jacques Rousseau.

Me imaginei em pleno iluminismo do século 18, num bate papo com o nobre pensador. Surpreso, ele me perguntaria sobre minha origem. Diria que vinha de uma nação distante, onde se ensaia democracia. Ele me interpelaria se nesse ensaio o poder legislativo é exercido por representantes do povo. Receoso, eu apenas assentiria com a cabeça. Contemplativo ele bebericaria seu chá e com um olhar distante me diria: vocês estão com problemas, estou certo? Assentiria novamente, mas agora com um olhar patético.

Então ele justificaria: “as leis são as condições da associação civil. O povo submetido às leis deve ser o seu autor. Sendo assim, o legislativo deve ser assumido diretamente pelo soberano, o povo, e essa soberania não se transfere”. E intensificando minha inquietude, ele se despediria me deixando o seguinte postulado: “uma sociedade só é democrática quando ninguém for tão rico que possa comprar alguém e ninguém seja tão pobre que tenha de se vender a alguém”. Que possamos prosseguir com o ensaio.