Eu ainda não havia me iniciado na escola, mas já tinha aprendido e incorporado dois sentidos para a palavra “rumo”. O rumo que delimitava a propriedade, sinalizado com cerca de arame farpado. Este era o rumo que jamais poderia ser ultrapassado sem que houvesse consentimento do vizinho. Eu sabia que se tratava de uma fronteira temida e respeitada. Transpô-la numa noite de luar, para surrupiar uma melancia, era uma transgressão com incontrolável sabor de aventura, mas com punição severa na eventualidade de flagrante.

O outro sentido de rumo, era o de direção, incansavelmente manifestado por minha mãe: “vá, com seus irmãos ao engenho, comprem melado de cana, e depois rumo para casa”, ou aquela corriqueira ordem no cair da noite: “vão se lavar para rezar o terço, e depois rumo para a cama, porque amanhã terão que acordar cedo, tratar as vacas e tirar o leite”. Se na minha consciência o rumo da cerca significava obediência e limite, o rumo da mãe, sancionado pelo pai, significava disciplina e direção para a vida.

Obvio que esses rumos eram verdades absolutas, embora eu desconfiasse um pouco. Em meu íntimo os rumos estabelecidos delimitavam, também, minha liberdade e curiosidade. Transgredi-lo sem prejuízo alheio, me soava como descoberta de novo espaço, e não invasão ou transgressão. Lembro-me nitidamente que isso me instigou um diálogo com mamãe:

- Mãe, porque é proibido pisar no outro lado da cerca?
- Porque o outro lado é um espaço que não nos pertence, respondeu ela.
- Mas o espaço não pertence à toda terra?
- Não meu filho, é a terra que pertence ao espaço.
- E o espaço pertence a quem então?
- O espaço pertence aos pássaros e às borboletas?
- Hum, então, se eu voasse, eu poderia ocupar o espaço do outro lado do rumo?
- Se você voasse sim. Então, aprenda a voar, e bem alto.

Eu não havia absorvido por inteiro aquela conversa. Me inquietava sempre que via uma borboleta ou pássaro alçando voo além do quintal. Minhas experiências iniciais de voo, seja pendurado a um cipó imitando Tarzan, ou ainda pulando de um galinheiro com um guarda-chuva aberto, não decolaram. Mas a ideia de voar nunca mais me abandonou. Em 1996 aprendi voar com a Sol Sports do brother Ary Prady. Indescritível. Hoje continuo voando com as asas da vida.