Há quem diga que se você parar para pensar vai acabar ficando na cama, para que levantar, para que lutar? Estou falando em pensar na vida. Acabei de ver uma cena na televisão que me deixou pensando, parei até com o chimarrão que estava tomando. Dei voltas no pensamento e acabei me lembrando do Domingos Montagner. Domingos era um jovem, 54 anos, começava a fulgurar na televisão, ele que viera do circo, famoso e protagonista da novela das nove. O Brasil o apreciava. De repente, sem aviso, Domingos morre afogado. Uma tétrica surpresa e comoção no país. Por ser o Santo, no Velho Chico, Montagner era um parceiro nosso de todos os dias. A vida pregou-lhe uma peça. Uma peça possível a todos e é aí que entra o pensar... Todos nós estamos aqui cumprindo o roteiro de nossa participação no teatro da vida, mas vivemos, o que é grave, como se fôssemos eternos, o que configura a maior estupidez do ser humano. Esquecemos, brutamente, que temos prazo de validade, prazo desconhecido, mas escrito nas “estrelas”... Vivemos numa eternidade inexistente. A cena que vi na televisão apareceu no meio do Brasil Urgente, na Band. Até então, era um caso atrás do outro, todos macabros, típicos do que há de pior na condição humana, nossa condição. Só crimes e atrocidades típicas de um país sem bússola moral. De repente... De repente, ao meio das cenas de barbáries urbanas e cotidianas, aparece um helicóptero, o Águia, da PM de São Paulo. Voava rasante sobre os prédios e tinha pressa... A razão? A razão fez o Datena abrir um tempo na programação de banditismo para acompanhar o Águia. A bordo havia um “coração”, um coração doado que estava sendo levado de um hospital para outro, urgência máxima. Que lindo ver o helicóptero voando em ziguezague e depois pousando sobre o Hospital Albert Einstein; mal pousou, abriram-se as portas e duas pessoas saíram rápido carregando a caixa com o coração que ia ser a nova vida de alguém perdendo a vida... Fiquei pensando. Isso é a vida, alguém parte e deixa sua vida para alguém que estava de igual modo por partir. E se é verdade, e é, que tudo o que somos, a nossa identidade física, moral e divina está em cada célula do nosso corpo, o coração que chegava para o um paciente em risco de vida, chegava com todas as identidades do seu doador. Uma vida saindo de um corpo para outro. Que lindo. Que eternidade. E nós, mais do tempo, perdendo esse tempo/vida com tolices, sem nos dar conta do “prazo de validade”, que bem pode estar ali logo, num banho de rio ou num atravessar de rua... Vida Há quem diga que é bom o ser humano viver como se fosse eterno, sem pensar na morte. Discutível. A consciência de que temos um prazo de validade devia nos levar a uma vida mais leve, sem tantas encrencas nem sonhos distantes e mais das vezes inúteis... Mas essa consciência só aparece quando a corda nos aperta o pescoço. Tontos. Falta dizer Pode parecer conversa mole, mas não é. Quem quiser fugir da solidão não procure por ninguém, procure por si mesmo, é a única saída. A vida interior e vazia é a mãe da solidão.