Ele seria preso

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Por: Luiz Carlos Prates

quinta-feira, 12:30 - 08/02/2018

Luiz Carlos Prates

Lá no galpão onde nasci (quando digo isso minha mãe quase me corta a língua...) se costuma dizer que o trabalho não tira pedaço de ninguém. Será que alguém discorda? E vivo dizendo que o trabalho nos empresta um sobrenome, o sobrenome da empresa onde trabalhamos ou da arte que exercemos. Você sabe disso.

Li há pouco a história de um dos homens mais ricos do mundo, bilionário, o sueco Inguar Kamprad que morreu semana passada aos 91 anos. Sim, bilionários também morrem, eles podem comprar os remédios, ir para os melhores hospitais, mas não conseguem fugir do destino humano. É daí que vem a nossa angústia vital, no dizer de Carl Rogers, psicanalista que um dia foi freudiano.
Pois o senhor Kamprad contava que aos cinco anos já fazia negócios. Andava pelas redondezas da casa onde morava vendendo cartões de festas, caixas de fósforos e mudas de flores. Aos 17 anos, fundou a Ikea, rede mundial de lojas de móveis modulados. Ficou bilionário.
Tudo bem, mas se ele fosse brasileirinho, nascido por estes dias, o pai dele estaria na cadeia, afinal, onde já se viu um guri de cinco anos “trabalhando”? De minha parte, também sou contra; as crianças devem começar a trabalhar “só” a partir dos oito anos... Mas neste país moralmente falido estão lutando agora, veja se pode, para que a adolescência seja estendida até aos 24 anos. Os mandriões estão esfregando as mãos, afinal, eles têm que estudar, se graduar, fazer pós, fazer doutorado, coçar o... e só depois muito depois pensar em trabalhar... Vagabundos. Mas os pais foram os culpados, com as pedagogias do amor e das imperdoáveis tolerâncias.
Quando a criança começa a trabalhar cedo, e não estou, obviamente, falando em trabalho escravo, ela cresce dando valor ao trabalho e ao dinheiro ganho com o suorzinho da testa...
Eu tenho vergonha de dizer que só comecei a dar duro aos dez anos, atrás de um balcão superconcorrido, meu pai tinha um armazém de secos e molhados, o supermercado da época. Cansei de levantar às 5 da manhã... Tirou-me pedaços? Claro que não, aprendi as idas e vindas de um sujeito atrás de um balcão, bah... Hoje, meu pai estaria preso por exploração da mão de obra infantil. Lacaios indecentes da falsa justiça.
Kamprad deve estar no céu, onde deve haver muitos ingênuos, ele vai ter o que fazer para ensinar a turma a levantar cedo e trabalhar.
Verdade
Viajar é bom, mas... lá de vez em quando. Mas conheço pessoas que vivem viajando, se endividando, que fique claro... E sempre disse que essas viagens são fugas. Agora, leio no livro Simples Verdades, de Kent Nerburn, que – “Talvez um dia você perceba que está usando suas viagens como uma válvula de escape para os problemas e as complicações de tentar criar algo sólido na vida”. Ele não falou em fuga diretamente, mas é fuga, sim. Mas não adianta fugir, onde quer que estejamos, estamos com nossos problemas...
Falta dizer 
Diz a Confederação Nacional dos Diretores Lojistas que nas classes A e B só 30% fazem poupança, guardam dinheiro. Depois esses calças-frouxas reclamam dos governos, batem panelas. Irresponsáveis da gastança irreal. Ah, você tem poupança?
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