Acabei de ler um obituário e fiquei cofiando o bigode, o bigode que não tenho, o bigode imaginário. E era mesmo de ficar pensando. Mas antes de dizer do que se trata, preciso dar umas voltas. Vamos começar por eles, os mais jovens... Os jovens, maioria, andam cada vez mais sem graça, não os quero nem de longe chamá-los de broncos. Vivem numa perda de tempo inaceitável diante da essência da vida que é exatamente o tempo, e que precisa ser bem aproveitado. Mas dou-lhes um desconto, com os pais que andam por aí só mesmo os jovens nascidos sob a inspiração do Espírito Santo podem achar a saída. Está difícil. Nas escolas, ai do professor que chame a atenção de um desses bobões, bobões que se acham, com celular na mão o tempo todo, drogas, bebidas, sexo promíscuo, “paspalhices”, enfim, e todos se achando machos, mesmo que só de aparência... - Ah, Prates, mas tu estás sendo muito grosso, muito indelicado, tu está generalizando! Não, não estou, procure aí em cima e veja onde generalizei, eu disse “maioria”, e maioria sempre deixa a porta aberta para os que valem a pena. Mas o que quero de fato dizer é que o mérito entre nós é cada vez menos aplaudido e apreciado. Uma pessoa de méritos, de valores, é desdenhada, é vista como enjoada pela maioria. Devia ser o contrário, devíamos andar com incensos na mão por essas pessoas. As pessoas de caráter, competentes, esforçadas e dedicadas ao trabalho, aos estudos, ao que for, precisam vencer, antes de tudo, seus chefes e até seus professores, muitas vezes. Já os bajuladores, os criadores de casos, os farsantes estão na vitrina. Agora é assim. O que acabei de ler foi um elogio de obituário a um médico que em vida fora muito dedicado aos pacientes, segundo li. Pode uma coisa dessas? Como se a dedicação de um médico a um paciente fosse virtude. É obrigação. A mesma obrigação que qualquer médico tem de tomar banho todos os dias. Mas chegamos a esse ponto, um médico ser elogiado por ser atencioso com os pacientes... Obrigações viraram virtudes. Quantas vezes eu já disse aqui que virtude é o que fazemos acima das obrigações? Virtude é o que não temos obrigação de fazer e fazemos. Um médico atender com carinho, zelo, atenção, é obrigação; um guri, uma guria estudar muito e todos os dias não é virtude, é obrigação. Mas agora é assim. Fazer a obrigação virou virtude. Que fim de mundo! TOLICE Paspalhos inventaram que temos que beber dois litros de água por dia. Baita besteira. Cientistas da Academia Nacional de Ciências da Austrália voltaram agora a dizer que temos que beber água apenas o suficiente para saciar a nossa sede, mais pode prejudicar seriamente a saúde. Mas vá dizer isso para os bobões das garrafinhas nas mãos... FALTA DIZER E ainda quanto a essa bobagem de precisarmos beber dois litros de água por dia, é bom não esquecer que a virtude está no meio. E nesse caso, a virtude é beber apenas o suficiente para matar a sede. O mais é modismo.