Acabei de ler um sujeito que num encontro de “intelectuais” seria corrido com ovos sobre a cabeça... Ora já se viu um sujeito dizer uma obviedade dessas... Ocorre que os “intelectuais” são apenas pessoas que leram muito, têm memória, mas nada fazem ou fizeram na vida, de outro modo, seriam pessoas ricas e felizes... Ou você conhece um “intelectual” rico e feliz? Pois é, mas eles olham os “ignorantes” (os demais) de cima abaixo, coitados! Bom, mas o que importa mesmo é o que acabo de ler. O tal sujeito, esse que seria corrido com ovos sobre a cabeça se dissesse o que disse num encontro de “eruditos”, apenas afirmou que somos infelizes porque não nos damos conta de que os desejos nos matam. Nossos desejos são como ondas do mar, disse ele, vem uma, vai outra, vem uma, vai outra, e assim ao infinito. Nós também. É um desejo atrás do outro. E o pior é que não gozamos daquilo com que muito sonhamos e acabamos por obter, conquistar, realizar. Nem vou dar o meu exemplo fajuto, muito repetido, o do sujeito que gastou as pestanas para conquistar a Miss Mundo, e conquistou... Dias depois, andava se assanhando para a mocinha aquela lá da esquina, a da quitanda... Piada? Nenhuma, somos assim, todos somos assim, todos. E vem daí a nossa infelicidade, sempre estamos “precisando” de algo, enquanto não chegarmos a esse algo somos infelizes. Chegados a ele, cansamos, queremos mais, queremos novidade. Chato isso, não é? E mais uma vez, vem-nos à memória a pregação budista do desapego. Parece lorota mas é coisa séria, só o desapego nos pode fazer felizes. E, por favor, entendamos desapego como um modo não neurótico de realizar desejos. Os desejos não podem sumir da nossa vida, só não podem é nos algemar num sofrimento contínuo: se eu não casar com a fulana/o, morro! Se eu não tiver um carro igual ao do meu cunhado, bah, que vergonha! Preciso urgente de um carro igual ao dele... Exemplos banais, toscos até, mas somos nós no cotidiano. O cidadão, o não-intelectual, disse uma verdade oceânica, mas e daí? Todos concordamos com ele, mas não é bem assim, pensamos. Só vou concordar com ele depois que eu tiver... (diga o seu desejo)... Eu já pensei o meu, mas esse nem às paredes confesso... Pensamento Sem pensamento, você sabe, não há sofrimento, vale dizer, quem não pensar bobagens será feliz. O diacho é fazer isso e ter êxito, penso que nem o Francisco consegue. Que Francisco? E você conhece outro? Francisco, o papa. Duvido que ele deite e durma... Basta estarmos mais ou menos bem para que o pensamento nos infiltre um medo: E se não der certo? E se ela/ele disser não? E se a vaga não ficar comigo? Ao infinito nossas possibilidades de sermos infelizes pensando... Falta dizer Falta dizer que quando o casal fecha junto em tudo, um “carreteiro” bem temperado na cozinha de casa é prato dos deuses... Ou, à noite, duas cadeirinhas uma ao lado da outra, no oitão da casa, um copinho de vinho e muita conversa fora, ah, que paraíso. Reconheço, é para poucos, mas possível.