A minha história com a Adri começou há muito tempo, e eu a uso como exemplo desde então. Muitas pacientes já ouviram essa história, mas não sabiam que era justamente da Adri. Porém, agora, todos saberão.

A Adri engravidou em abril de 2019, mas infelizmente a gestação não evoluiu. Houve um aborto de 1º trimestre. Naquela época, eu expus as opções que ela tinha, fazer a conduta expectante (aguardar por 15 dias expulsar espontaneamente) ou internar e fazer a curetagem.

A Adri e o Bruno foram muito racionais e serenos com a notícia (muito mais do que eu), e optaram por aguardar (algo que não conseguiria e não fiz, mas fiquei feliz por ela conseguir enxergar além da dor e optar por uma solução menos agressiva, ainda que eu jamais poderia condenar quem opta por curetagem, né?).

Após alguns dias, a Adri realmente conseguiu eliminar todo material, fizemos ultrassom de controle e tudo certo. Um dos motivos pelos quais a Adri e o Bruno optaram pela conduta expectante foi justamente pelo maior benefício, o rápido retorno da fertilidade.

Quando a mulher faz curetagem, a camada mais interna do útero (endométrio) tem que ser raspada para retirar o material gestacional, mas após essa raspagem o endométrio precisa de um tempo para retornar ao seu normal. E sem endométrio adequado, não tem como o embrião se implantar no útero e crescer.

E não é que a Adri e o Bruno tomaram a melhor decisão? Em agosto de 2019 ela já estava grávida! A história resumida que eu sempre conto nas consultas é uma mulher que optou pela conduta expectante, a qual foi resolutiva, e logo após engravidou.

Foi a forma que encontrei para ilustrar um tipo de conduta frente ao aborto e também dar esperança a esses casais pós-aborto que acabaram de ter seus corações partidos. Mas voltando a falar de Adri, ela não teve uma das gestações mais tranquilas.

De partida, houve uma diabetes gestacional. Ou seja: dá-lha espetar o dedo, mas de início conseguimos controlar bem apenas com dieta, e fomos bem, se não fosse a reta final (reta final em geral dá problema mesmo).

Às 34 semanas o perfil glicêmico alterou. Chamamos de perfil glicêmico o controle de diabetes - onde a mulher espeta o dedo e marca a diabetes em jejum e 2 horas após as principais refeições do dia.

Vários exames alterados somados com avaliação do bebê, e era hora de iniciar medicação. Bem pouca coisa, e foi o suficiente até o final. Viu como diabetes não é sinônimo de insulina? Mas não foi a diabetes que me deixou de cabelo em pé. Não mesmo.

Com 16 semanas a Adri simplesmente começou a ter sangramento vaginal, juro que deu um frio na espinha. Não, isso não podia acontecer de novo com a Adri! Foram muitos ultrassons e nada de alteração, não tinha descolamento ou placenta baixa, tratava-se na verdade de uma infecção no colo do útero danada, que precisou de muitos tratamentos para curar.

Quando eu não sabia mais o que fazer, o sangramento parou. Seguimos sem novos sangramentos, e, portanto, sem novos exames ginecológicos. Entretanto, eu sempre faço avaliação do colo do útero com 36/37 semanas, indiferente se a paciente vai ganhar comigo ou não.

E né que nessa avaliação boba, com a Adri sem queixa alguma, essa mocinha já estava com 3 centímetros?! Mas era ainda muito cedo, orientei repouso, e continuamos a avaliação toda semana, e como já expliquei para vocês, me sentia de novo contando feito criança: 3 —> 3,5 —> 4 —> 4 —> e chega que meu coração não aguenta mais, e 38 semanas está bom demais!

Djenifer nasceu chorando forte e foi direto para o colo dos pais. Devo dizer que foi muito gratificante após ser mensageira de notícias ruins, agora ser de notícias melhores.

Eu vou continuar usando a história da Adri para trazer esperança aos casais pós-aborto, porque é isso que a Djenifer é para seus pais e para nós, pura luz! Adri e Bruno vocês foram um casal único é muito especial, Adri você é uma querida, sempre tranquila, exceto no pós-parto, mas também ninguém merece uma dor de cabeça dessas (ainda acho que foi da anestesia).

Eu desejo muita luz para vocês, hoje e sempre!