Líder reconhecido do setor de tecnologia de Santa Catarina, Daniel Leipnitz foi reeleito para um segundo mandato na presidência da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate). Graduado em Administração (Udesc-Esag), MBA em Administração Global pela Universidade Independente de Lisboa e mestre em Administração de Empresas (Udesc), é diretor de Assuntos Corporativos da Visto Sistemas, empresa com atuação nacional.

Ele concedeu esta entrevista exclusiva à reportagem da Coluna Pelo Estado para falar de seus planos para o novo período de gestão, fortemente baseado em interiorizar as ações da entidade, fortalecendo os polos tecnológicos já consolidados no estado e abrindo novas frentes, como forma de descentralizar os investimentos.

Para Leipnitz, o importante agora não é só ampliar o número de associados – o incremento foi de 35% de 2016 a 2018 –, mas mostrar aos associados os benefícios que têm trabalhando juntos, de forma que o conjunto das empresas experimente crescimento, a exemplo do que ocorreu mesmo no período de maior gravidade da crise econômica.

“A Acate é uma instituição sem fins lucrativos, catarinense e que tem o objetivo de ajudar os empreendedores e as empresas a se desenvolverem. Com isso, ampliamos o ecossistema de inovação. Somos catalisadores de boas práticas”, resume.

[PeloEstado] - Na semana passada o senhor foi reconduzido para mais dois anos na presidência da Acate. Quais os planos?
Daniel Leipnitz - Queremos reforçar a interiorização da Acate, levando programas que já temos na sede para serem desenvolvidos junto com os polos regionais. Como o Link Lab Acate, um laboratório de inovação aberta, no qual misturamos as indústrias tradicionais da cidade ou região com as startups para a busca de soluções de eficiência.

Temos ainda o MIDI Tecnológico, uma incubadora mantida em parceria com o Sebrae-SC e super interessante para ser levado ao interior catarinense. Cada região tem a sua peculiaridade, inclusive no que diz respeito à mão de obra. Para se ter uma ideia, hoje, 50% dos colaboradores vieram de outros estados para atender demandas locais. É uma questão de necessidade, de relação oferta/procura, e também acúmulo de experiência. Por outro lado, os empreendedores, em sua maioria, são catarinenses.

[PE] - No mesmo dia da reeleição foi divulgado o Observatório Acate. Do que se trata?
Daniel Leipnitz - O Observatório era um sonho do nosso ex-presidente Guilherme Stark Bernard (falecido em 2016). Nós começamos a concepção, nos aproximamos da Federação das Indústrias (Fiesc), que já tem um trabalho na mesma linha e muito bem sucedido, e, com  apoio deles e da Neoway conseguimos montar o do nosso setor.

A maior importância da iniciativa é conseguir mostrar para o setor e para a sociedade que nós conhecemos a nós mesmos. Sabemos nossos números, quem somos, onde estamos, o que faturamos, quantos empreendedores, quais os gêneros, tipo de empresas e de soluções.

Isso atrai a atenção das pessoas do Brasil inteiro e mesmo de outros países que nos visitam, sejam representantes de universidades, investidores, embaixadores... Tendo esses dados de forma organizada é possível transmitir mais credibilidade.

[PE] - Algum dado surpreendeu ao ser consolidado?
Daniel Leipnitz - Tivemos várias surpresas. Penso que a questão de a maioria dos colaboradores das empresas de tecnologia do nosso estado ser de mulheres é algo importante. São mais de 54% de mulheres em um ambiente não só masculino, mas machista. É um número significativo, ainda mais se compararmos com o país e o mundo, cujo índice médio fica em  32%.

[PE] - O que explica isso?
Daniel Leipnitz - Acredito que em grande parte é a característica das nossas empresas, com áreas de atendimento e comercial, cargos mais femininos. É um número surpreendente? Sim. Mas não nos exime do preconceito de gênero que ainda existe na área. Tanto que, infelizmente, elas não são maioria nos setores de desenvolvimento. Torço para que haja maior equilíbrio e em pouco tempo.

[PE] - Como está a representatividade da Acate hoje?
Daniel Leipnitz - Foi outro dado confirmado pelo Observatório: as nossas empresas associadas, que representam 70% do setor no estado, passam de R$ 10,2 bilhões de faturamento. Só as associadas da Acate representam mais de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) catarinense. O setor como um todo chega a faturar $ 15,5 bilhões, respondendo por quase 6% da nossa economia.

E aqui vem outro dado bastante interessante: as empresas que estão na Acate, que participam do movimento associativista, têm um faturamento médio dez vezes maior frente às que ficam isoladas. Juntos, temos maior representatividade, colaboração mútua e mais percepção das oportunidades.

[PE] - Como está o projeto de expansão da Acate?
Daniel Leipnitz - Hoje já temos um escritório em São Paulo disponível para todo empreendedor catarinense da área de tecnologia. É um lugar super bacana, que ajuda a passar credibilidade aos clientes, com espaço para reuniões, demonstrações e até para descansar. E aqui, no interior de Santa Catarina, estamos cada vez mais próximos, desenvolvendo projetos em conjunto com outras entidades, empresas ou poder público. São diversos projetos que estão no forno para sair.

[PE] - Pode divulgar algum?
Daniel Leipnitz - Claro! Estamos trabalhando para participar do Centro de Inovação de Joinville, o Ágora; para fazer um centro de inovação em Indaial; para participar do centro de inovação de Itajaí; e conversando para chegar também a Tubarão.

A Acate é uma instituição sem fins lucrativos, catarinense e que tem o objetivo de ajudar os empreendedores e as empresas a se desenvolverem. Com isso, ampliamos o ecossistema de inovação. Somos catalisadores de boas práticas. Podemos pegar uma ideia muito bacana que está sendo desenvolvida lá em São Miguel do Oeste e trazer para o resto do estado, ou o que esta sendo feito em Joinville, Blumenau e assim por diante.

Como entidade, temos a função de centralizar essas informações e ajudar na troca de informações, nas possibilidades de parcerias.

[PE] - Os ainda não associados estão principalmente no interior?
Daniel Leipnitz - Eu creio que existem alguns na região de Florianópolis, mas está mais espalhado pelo estado todo. A nossa ação para atrair esses empreendedores vai ser ajudar para o fortalecimento dos polos no interior. É o nosso principal objetivo agora. Nos dois primeiros anos de mandato fizemos mais de 40 viagens pelo nosso interior, conversando, explicando e chamando para participar da Acate.

Isso resultou em um crescimento de 35% no número de associados na minha primeira gestão. É um salto e tanto, ainda mais considerando que foi um período conturbado, política e economicamente. Para o novo mandato que estamos começando, queremos ampliar o número de associados, sempre mostrando os benefícios a que têm acesso.

[PE] - O que ainda falta, do ponto de vista do poder público, para o setor crescer mais?
Daniel Leipnitz - O governo tem que ajudar bastante no fomento das pequenas empresas do setor. Isso é fundamental. Como o programa Sinapse da Inovação, onde mais de uma centena de municípios participaram, ajudando a descentralizar e a interiorizar o investimento. Isso é papel do Estado. Assim como instalar centros de inovação em cidades que não tenham condições de fazer parcerias com a iniciativa privada.

Há muita burocracia, exigência de licitações... Outro programa importante, também de Santa Catarina, e o Geração TEC. Ele foi reaprovado, mas o governo está com bastante restrição orçamentária e não foi para frente. Da mesma forma que o Sinapse. Não condeno o governo, porque estamos todos cientes da situação, mas é uma pena e dá muita tristeza.

[PE] - Isso pode levar à transferência de empresas daqui para outros estados ou países?
Daniel Leipnitz - Não, porque são programas de incentivo para empresas que estão começando. Obviamente são pessoas que não têm fôlego para uma mudança assim, que estão ainda na fase das ideias. O que vai acontecer é uma desaceleração no crescimento de empresas.

[PE] - O agravamento da crise levou ao fechamento de empresas?
Daniel Leipnitz - Ao contrário, tivemos um crescimento no número de empresas. Mas sofremos a crise também, o que fica claro na redução de faturamento, investimentos sendo postergados.

[PE] - Quanto do que é produzido aqui em tecnologia vai para outros estados?
Daniel Leipnitz - Entre 80% e 90% são soluções tecnológicas para outros estados e, em percentual bem menor, para outros países. Algumas vezes uma solução desenvolvida para outro mercado mais tarde é aplicada internamente também, seja para o setor produtivo ou mesmo para o público. Isso é natural.