Passaram-se NOVE meses desde o início da pandemia de Covid-19... E continuamos ofegantes, por causa do uso contínuo da máscara facial a fim de proteger-nos uns aos outros diariamente. No entanto, o brado ofegante do qual discorrei não é um protesto sobre esse hábito necessário e obrigatório “usar a máscara”, mas sim um brado ofegante “cansado, exausto” de uma classe denominada “professores”.

Primeiramente, é necessário proferir “em alto e bom tom”: ser professor (a) não é um dom e não desempenhamos nossa profissão (só) por amor! Ser professor é uma escolha profissional – digna de respeito e direitos como as demais profissões – que requer um processo: de estudo contínuo e intenso, de trabalho, de empenho, de resiliência, de obstinação, de perseverança, e de construção.

E eu já li, ouvi e escrevi muito acerca do caso das aulas on-line e do processo de ensino-aprendizagem relativos a esse momento. Em geral, nas redes sociais, notei duas ocorrências frequentes: a) comentários sobre a quantidade – exacerbada ou reduzida – de tarefas as quais os estudantes precisavam realizar e b) comentários a respeito da falta de acesso a equipamentos e/ou tecnologias apropriadas a fim de que o “ensino remoto on-line” pudesse, de fato, ocorrer.

Este ano de 2020, no entanto, o profissional professor já foi xingado de “vagabundo” por não querer trabalhar, e, por outro lado, há, ainda, pessoas que insistiram em santificá-lo. Sabe, gente, chateia! A situação do professor merece (e muito) ser revista! Admito a vocês: tem-me faltado romantismo neste caso. Muitos vêm com a frase feita “professor é a profissão mais importante do planeta, porque todas os profissionais passam por ele!” Não é bem assim...

Talvez o alfabetizador sim, ensine a todos, mas, parem com isso! Não creio que haja uma profissão mais importante do que outra, visto que – conforme as Teorias da Educação – ninguém ensina sozinho: é uma via de mão dupla.

Nessa vereda, ser professor é um trabalho conjunto, no qual há o envolvimento e a participação coletiva, pois vai além da sala de aula (e como!), do contrário, é um desastre. Sob esse prisma, entendo a prática docente como a indissolubilidade da articulação entre a teoria e a prática, perpassando pela consciência de que o nosso trabalho tem como função vital a transformação do mundo.

Por mais valorização e respeito (de verdade)!

Oportuno se toma dizer que a partir de agora, discorrerei do meu lugar de fala: professora da rede privada de ensino no ano de 2020. Em dados momentos, muitas pessoas estão tão arraigadas em certos contextos que não conseguem conceber o todo em uma circunstância. Por essa razão, cumpre-me convidá-los a exercerem a empatia.

Este ano, os professores tiveram de se reinventar e aguentar firme “o tranco” do dia para a noite, tendo suas rotinas bem modificadas e cargas de trabalho bem cheias – e, além disso, agradecerem por continuarem “empregados”.

No início, muitos nem sabiam lidar com as ferramentas tecnológicas impostas “naturalmente” para realizarem as aulas remotas, sentindo-se despreparados e “perdidos”. Afinal, quem se preparou para ser professor em época de pandemia, não é? Estudamos e atuamos juntos. Dispusemo-nos a aprender.

No decurso do processo: preparamo-nos quanto ao aperfeiçoamento de ferramentas, em aulas virtuais, em videoaulas, novas metodologias, elaboramos materiais e atividades, escrevemos relatórios e planos de aulas a cada aula, registramos aulas nas plataformas, atendemos aos estudantes praticamente em tempo integral, bem como aos pais dos estudantes e, ainda, no fim do dia, precisávamos corrigir atividades e “termos nossa vida pessoal” preservada.

Aí ouvimos: “_ Mas vocês escolheram ser professores?”

Sim! É verdade. No entanto, eu não quero ser (só) uma “professora guerreira”, mas uma professora respeitada, valorizada e em condições dignas de trabalho. Considero-me uma professora bastante privilegiada, haja vista que tenho acesso a ferramentas tecnológicas, material didático de qualidade, conhecimento de tecnologias (estou aprendendo mais a cada dia), muitos alunos interessados, bem como suporte e apoio da escola onde trabalho. Porém, muitos professores não têm!

Reflexão necessária

Tecidas essas considerações, precisamos respeitar os limites das pessoas envolvidas nessa relação de ensino-aprendizagem, pois é uma via de mão dupla. Paulo Freire (2005), no livro Pedagogia do oprimido, expõe sua pedagogia dialógica e também dialética.

Dialógica porque é por meio da comunicação que formamos relações com o outro e edificamos a dialética em nossa vida. E dialética porque não há como dicotomizar os fundamentos da educação que são: ação-reflexão, subjetivo-objetivo, homem-mundo, educador-educando, sendo que nestas relações não se apresenta o mais importante e o menos importante, ou uma hierarquia de um sobre o outro.

Conforme aduzido em linhas pretéritas, a educação não é uma via de mão única, mas de mão dupla. Desse modo, caso suceda um problema entre os agentes desse processo de ensino-aprendizagem, ele não se efetiva.

Enfim, este ano atípico permitiu-me refletir ainda mais sobre a nossa profissão de docente e, no dia dos professores, tocou-me profundamente os tantos cumprimentos vazios e as felicitações romantizadas que aconteceram nas redes sociais sobre o dia dos professores.

De um lado, saltou-me aos olhos, de maneira clara e inconteste, os tantos comentários e posts e de outro os tantos gritos de colegas de docência... Ao passo que friso como arremate aludindo a um ditado que sempre ouvi muito na casa da minha avó materna (e na nossa): “Se ninguém gava, Maneca gava”, em outras palavras, se ninguém fala nada, se ninguém elogia, elogio, de modo preciso, sincero, justo e honesto, eu!

Somos uma classe de trabalhadores admiráveis, excepcionais, inteligentes, necessários. Todavia, somos muitos e raramente ouvidos, raramente lidos, raramente reconhecidos, de fato. A cada ano, nossa profissão torna-se escolha rara entre os estudantes... por que será? O texto de hoje é para refletirmos, de modo dialógico e dialético, assim como fazemos costumeiramente em nossa prática docente.

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