Assim como Manoel de Barros, sou apaixonada pelas insignificâncias da vida. Ultimamente, o fato de ser mãe, possibilitou-me, ainda mais, um olhar apurado e sensível para observar e perceber que as crianças também amam o insignificante... Como isso tem chamado minha atenção! Já chamou a sua?

Nem sempre a gente entende bem essas minuciosidades. Tenho observado muito as crianças... Bem, a criança, por exemplo, é apaixonada pelo insignificante. E ela é lenta nessa marcha. Ao tentar colocar uma tampinha na garrafa, rosqueando-a uma, duas, cinco vezes, ela continua concentrada na ação. No entanto, a gente não se aguenta e acaba, muitas vezes, interferindo e colocando a tampa da garrafa para ela. Às vezes, ela se incomoda e chora...

Daí, nós (adultos) explicamos que agora ela vai poder brincar e fazer outra coisa – pois, ao nosso olhar, essa ação é tão mais importante do que colocar a tampinha na garrafa! Contudo, nós tentamos ser gentis com a criança: “Eu sei, filho/a, eu estava só…” O quê? Apressando a ação. Deixando “perfeito”. Ou melhor, complicando! Porém, a criança “não é perfeita”: está no caminho do primor e é apaixonada pelo percurso do caminhar; por cada passinho dele.

Ao contrário do que pensamos, a criança não está só aprendendo, mas criando. E o mais interessante é que ela está elaborando um ser humano inteirinho – não somente uma ação qualquer. E, aos pouquinhos, habilidade por habilidade, ela segue... levando o copo até a boca para beber água, abotoando o casaco, fechando e abrindo o zíper da jaqueta, amarrando o tênis, abrindo/fechando uma porta, apertando o interruptor para acender/desligar a luz etc. Quanta construção linda!

Ah, vocês devem concordar comigo que o trabalho de criação do ser humano é bem mais extenso, lento e repetitivo do que o trabalho de reprodução. Tenho pensado muito a respeito disso também (mãe e professora), nessa era em que a informação é tão acessível e questionável (algumas vezes, até descartável) e onde se visa a resultados imediatos e não a processos bem elaborados.

Em um sistema que aspira à produção e ao consumo – sempre crescentes, as pessoas têm acreditado que precisam sempre de “mais”, pois nada é suficiente... Neste mundo que “não se pode parar e se tem pressa”, aflora uma espécie de “descontentamento programado”, ao passo que a contemplação e a vagarosidade perdem espaço para o supérfluo e a celeridade, e o “processo” para a demanda contínua de “mais” e “mais”...

Desse modo, creio que devemos nos encher de “insignificâncias” da vida permitindo-nos sentir... Sentir o frio e o calor; a alegria e a dor; o despertar e o sono; o medo e a coragem; a quietude e a ansiedade; o prazer e a labuta; a disposição e o descanso; os cheiros e os gostos; a saudade e a vida que pulsa...

Assim sendo, que possamos nos relacionar mais com a luz do sol e os raios da lua; com o verde da natureza e o colorido das flores; a melodia das águas e do sereno; o balanço das ondas e o sossego dos ninhos; o cantarolar dos pássaros e o coaxar dos sapos; o brilho das estrelas e vagalumes e a escuridão noturna; os cheiros das ervas e os gostos dos frutos; o toque do vento e o regar da chuva...

Nesse passo, já exprimiu o poeta Manoel de Barros, em trecho de entrevista ao Jornal Estado de São Paulo (18/10/1997): “Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas. E me encantei.” Tal como ele, que possamos nos relacionar mais com a intuição e a percepção amorosa que flui de dentro para fora, aflorando nosso “eu” verdadeiro repleto de encantamento.

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