O mundo seguia o seu ritmo célere como descreveu Luis Fernando Veríssimo em sua crônica “Exigências da vida moderna” e o relógio seguia seu compasso “tic-tac” como bem ilustrou Vinicius de Moraes, em 1970. Até que...

A pandemia desencadeada pela disseminação do coronavírus obrigou-nos a pensar a respeito de muitas questões complexas. Uma delas, a qual me debruço, agora, diz respeito ao vocábulo “parar”, já trazido por Raul Seixas e Cláudio Roberto (também na década de 70) na música “o dia em que a Terra parou”: “foi assim: no dia em que todas as pessoas do planeta inteiro resolveram que ninguém ia sair de casa como que se fosse combinado em todo o planeta... Naquele dia, ninguém saiu de casa, ninguém.”

Ora, estava cá eu a refletir e pensei: “a música é feita de pausas”, “a gravidez, igualmente – a barriga cresce aos poucos..”, “o período menstrual também – quando se engravida cessa-se a menstruação”, “a natureza requer pausas para brotar, florescer e morrer para viver de novo...” e assim por diante.

Que linda é a melodia musical, com seus tons e pausas, com suas batidas e silêncios... Por que nós, seres humanos, pertencentes do século XXI, não nos dávamos permissão para parar até o momento? Precisávamos de uma pandemia a fim de desacelerarmos e interrompermos nossas listas de afazeres infindáveis.

Breve reflexão

Bem, é até irônico pensar e citar a pausa, porque nunca vivi tanto num vaivém como agora. A começar, a fase da vida, a qual estou, contempla filhos, carreira, casa, marido, ser professora em um contexto de desprestígio social e submetida a milhares de demandas, e assim por diante.

Nesse ínterim, ao acordar começo o dia em meio a mil tarefas – o que não me permitiu contemplar o tédio ainda (quem vive situação parecida me entenderá). Tenho dois filhos; um deles, a bebê, ainda mama (à noite, inclusive!), a casa me chama a todo tempo e já me peguei cantando: “lava roupa/louça todo dia que agonia (e por que não alegria? – pelo menos estou “curtindo a quarentena ao lado de quem amo, na nossa casa e com saúde)”. Que dias dúbios. Quantas contradições. Quantos pensamentos...

A vida nos alertando para o outro lado da moeda: a morte. O inimigo invisível para o opositor visível. A saúde para a doença. A pluralidade para a individualidade. A família agitada e bagunceira para a desunida. Os familiares e amigos distantes para bem perto por meio da tecnologia. O real e o virtual se confundindo. Os beijos e abraços se intensificando entre os entes da mesma família.

Desacelerando o ritmo

Mas, voltando às pausas. Certamente, elas se fazem necessárias. E, no momento, com elas imperando sobre a nação em detrimento da pressa e da correria muitos se veem afobados “em busca de” e em um estranhamento consigo mesmo e com o mundo. O que fazer? Como fazer? De que modo? Afinal de contas, grande parte das gentes desse planeta estava vivendo no botão “modo automático”.

Reinam as perguntas, que ora estavam silenciadas por trás da “Era Google” da informação, desprovidas das respostas; antes tão instantâneas. Perguntamo-nos sobre o valor da saúde versus economia; ciência versus desconhecido; natureza versus produção; competência versus ignorância; valores humanos versus valores monetários; arte versus pragmatismo, e outras mil.

Ao longo de minhas conjecturas, aproximo-me da dubiedade machadiana presente no conto “O Espelho” em que o autor traz a teoria de que o homem tem duas almas: uma que olha de dentro para fora; outra que olha de fora para dentro...”. Há acontecimentos, por exemplo, em que um mero botão de camisa torna-se a alma exterior de uma pessoa; e assim também a polca, um livro, um par de botas, etc. Machado conta o caso de um jovem que, sendo nomeado alferes da Guarda Nacional, tanto se reconheceu na patente que o “alferes extinguiu o homem”.

Neste conto, aparecem relações entre ser versus parecer, desejo versus máscara, vida pública versus vida íntima, em meio a um constructo genial por parte do autor que cria um jogo de alternâncias entre a objetividade e subjetividade; o concreto e abstrato; o tempo cronológico e psicológico.

Descobertas e ambiguidades

Há uma análise perspicaz do comportamento humano, na qual está revelada a nossa “alma externa” – ligada ao status e prestígio social, à imagem que os outros fazem de nós – em detrimento da nossa “alma interna”, ou seja, o nosso EU real. E volto-me ao meu “eu” para inquiri-lo: em que espelho ficou/está/ficará refletida minha/nossa face? Atenho-me, aqui, a alguns contatos descontínuos, seguindo essa estranha proximidade.

Parece-me tão atual. Tão genial para o momento. Pensar em vida pública e íntima, novas formas de interações, novas formas de sentir e “tocar”. Tenciono trazer à baila a respeito de uma dessas proximidades necessárias pelas quais se marca um traço da época. E quanto às máscaras? Que ambiguidade interessante: no momento presente há que se jogar as máscaras sociais fora ou deixá-las de lado, por um tempo, no entanto, por outro lado, as máscaras faciais são recomendadas para uso das pessoas em geral, sendo indispensáveis para a proteção contra o vírus...

Ah, eis que o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usurpando a célebre constatação de Thomas Hobbes de que “o homem é o lobo do homem”, rapidamente vindicou: “não queremos outros conseguindo máscaras”. E, nesse compasso, o tempo nos ditará as respostas: o cronológico e o psicológico, como já abordou o escritor-poeta. Vede que, a resposta, possível no momento, provém da arte, da filosofia, da subjetividade e do intangível; mais uma imposição de rotina volátil e impalpável ao tato humano.

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