Já me peguei pensando algumas vezes a respeito... O bem mais valioso de nossa época não deve ser o ouro, o petróleo, a receita da nega-maluca da Padaria Kamilla (amo!) ou a fórmula da Coca-Cola, mas sim, o tempo. Satisfazendo à lei da oferta e da procura, quanto mais pequeno fica, mais caro nos é.

A seca temporal é universal e absoluta, tão popular quanto a Anitta, o Silvio Santos, a Patrulha Canina e a Galinha Pintadinha: eu não tenho tempo, você não tem, o Neymar não tem tempo, o cara que está vendendo toalha de louça no sinal, também não tem. Como já devem ter ciência, o sintoma básico desta enfermidade crônica é a tal da ansiedade.

Todas as manhãs, surpreendo-me; fazendo maquiagem, café esquentando, engolindo o pão e ao mesmo tempo fazendo a minha oração e pensando na lista do dia... os dentes? Às vezes não escovo, na pressa – faço isso quando chego no local de trabalho. Vejo-me batendo os pés no chão, enquanto o elevador não chega. Ouço o celular tremer; e piscar... WhatsApp chegando. E eu... aflita.

Antes, não funcionava bem assim. Lembro-me da minha infância e os dias eram compridos; tinham umas tantas horas, alguns deles chegando a 30, se bem me recordo. No entanto, não é que eu pratique mais coisas hoje do que antigamente. Já refleti sobre isso, entretanto analise comigo quantas obrigações eu tinha no passado: cinco horas na escola, lição de casa, inglês, dança, vôlei, informática, almoço e jantar com os pais, todos os dias, sem considerar os períodos ao vivo ou ao telefone “fofocando” com as amigas.

E, ainda assim, abundavam ilimitadas horas, dificílimas de se preencher, por mais que fosse visitar a vó e tomar um café junto a ela e às tias, lesse livros, assistisse à televisão, tirasse alguns cochilos, fosse à casa de amigas conversar, bordar, cozinhar, falar mal dos outros ou somente juntar nossos tédios e ouvir o tic-tac dos relógios. Havia mais horas, certamente, ou eu era bem mais produtiva do que consigo ser hoje em dia.

Talvez tenha sido lá pelo ano 2002 – quando ingressei na faculdade – que o dia passou a minguar, com efeito de 12 horas diárias. Há quem coloque a “culpa” na melhora das comunicações. Acho que a informação está trafegando tão célere que nos esquecemos da arte de esperar. Há um tempo, esperar era habitual. Todos estavam sempre aguardando algo acontecer. Para trocar o canal da televisão tinham de levantar e girar o botão do aparelho – pois o controle remoto não era artigo de muitas residências...

Além disso, ouvia-se mais o rádio e tinha-se que esperar para tocar a música “top” – não tinha Spotify com todas as músicas em qualquer momento. A carta, ah que saudade! Vinha pelo correio e por lá também era postada. Que alegria quando recebíamos uma. Lembro-me de ir várias vezes ao correio verificar se havia carta para mim. A fita cassete; precisava-se passar para trás ou para frente e até virar o lado para achar a música no “ponto certo”!

A fotografia, não poderia ser vista na hora. Esperara-se a revelação e, às vezes, uma surpresa: olhos vermelhos ou fechados, cabeça cortada etc. Tais lacunas eram tidas como naturais, um hiato benéfico. Parada para o café, a leitura, a conversa na janela, o prosear com os amigos e vizinhos (ah, os vizinhos... eram como da família!). Atualmente, isso não é regra, mas exceção. Temos tudo, e, se não temos, nos agoniamos.

Bom, até que não se desvende a cura para este mal, o tiro de mestre é tentar lidar com ele. Enquanto a gente tenta, o tempo passa e a gente passa junto com ele no badalar do tic-tac do relógio... Opa, o meu relógio está soando, tenho de ir... muito a se fazer.