Por Fran Sevignani
Mãe atípica, jornalista e fundadora dos grupos Quero Minha Mãe e Te acolho
A violência que aconteceu esta semana em Jaraguá do Sul chocou a todos. Um crime precisa ser investigado, julgado e punido. Mas bastaram poucas horas para que o debate deixasse de ser sobre a violência e passasse a ser sobre o autismo.
Nunca tive tanto medo dos comentários da internet. Até ler um dizendo que pessoas autistas deveriam ser jogadas de um penhasco. Quando li aquilo, eu não pensei no jovem que estava na manchete. Pensei nos meus filhos.
Pensei em quantas pessoas ainda olham para um diagnóstico e enxergam uma ameaça. Pensei em quantos anos de conscientização podem ser destruídos por uma única tragédia e por uma enxurrada de desinformação.
Em poucas horas, um crime deixou de ser tratado como um ato individual e passou a ser usado para justificar o medo, o ódio e a discriminação contra milhões de pessoas que não têm qualquer relação com aquela história.
Li pessoas dizendo que autistas são perigosos. Que deveriam ser isolados. Que representam uma ameaça. Enquanto lia aquilo, eu não pensava no autor do crime. Eu pensava nos meus filhos.
Pensava que, para muita gente, basta um diagnóstico para que toda uma comunidade seja condenada. E isso me assusta. Não porque eu queira minimizar a gravidade do que aconteceu. Muito pelo contrário. Um crime é um crime. Isso não está em discussão.
O que está em discussão é outra coisa. Por que um diagnóstico pesa mais do que os fatos? Por que, quando uma pessoa autista comete um crime, o autismo vira manchete, mas quando uma pessoa sem deficiência comete a mesma violência, ninguém pergunta qual era o seu diagnóstico?
Essa diferença revela muito mais sobre os nossos preconceitos do que sobre o próprio autismo. Também revela o quanto ainda sabemos pouco sobre o espectro.
Nem toda pessoa autista apresenta crises comportamentais. Nem toda pessoa autista é agressiva. Nem toda pessoa autista tem acesso às terapias, aos profissionais, às medicações e ao suporte de que precisa. O espectro é diverso.
Mas existe algo que une praticamente todas as famílias atípicas: a sensação de estar sempre lutando. Lutando por atendimento. Por inclusão. Por respeito. Por políticas públicas que saiam do papel. E, muitas vezes, lutando apenas para que nossos filhos sejam vistos como pessoas antes de serem vistos pelo diagnóstico.
Talvez seja esse o ponto que mais me dói. Porque, enquanto discutimos comentários de ódio na internet, existem famílias enfrentando filas intermináveis por terapias, escolas despreparadas, profissionais insuficientes e uma rede de apoio que ainda está muito longe do ideal.
Nada disso justifica um crime. Mas ignorar essas falhas também não evita que novas tragédias aconteçam. O autor deve responder pelo que fez. A sociedade, por sua vez, precisa responder pela forma como escolhe enxergar o autismo. Porque preconceito nunca protegeu ninguém. Informação, acolhimento e responsabilidade, sim.
Como mãe atípica, eu não espero que todos compreendam o autismo em sua complexidade. Mas espero, pelo menos, que entendam isto: quando um crime cometido por uma pessoa autista se transforma em motivo para atacar todas as pessoas autistas, o preconceito também faz vítimas.
E essas vítimas têm nome, têm família, têm sonhos.
Entre elas, estão os meus filhos.