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“Dê valor ao professor”

Imagem: Divulgação

Por: Ana Kelly Borba da Silva Brustolin

15/10/2026 - 17:10 - Atualizada em: 15/10/2026 - 17:23

A máquina aprende depressa,

devora dados, cospe certezas;

e o homem, em sua pressa,

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confunde respostas e se torna “presa”.

A vida pede urgência, imediatez,

exige rendimento;

mas quem mede o pensamento

pelo relógio desse momento?

Mais velocidade:

seria esse o caminho?

Correr sem saber pra onde,

perdido como um cordeirinho?

Acelera-se a história,

encurta-se a reflexão;

há tantas respostas prontas

e pouca interrogação!

A inteligência artificial

segue padrões, reconhece sinais,

todavia não pode, por si mesma, decidir

o que é justo entre os desiguais.

Até sugere respostas,

e simula argumentação;

mas não lhe entreguemos, de herança,

o juízo e a decisão.

A chave do conhecimento

é essencial descobrir:

ela abre portas, rompe muralhas,

ensina a desconfiar do porvir.

Eis que surge o professor,

com sua pilha de afazeres,

laudos, metas, formulários,

mil cobranças, mil deveres.

Exigem que seja tudo:

psicólogo, gestor, mediador;

que cure as dores do mundo,

porém e o reconhecimento de “educador”?

Já olharam, de fato, pra esse ser?!

Quem o vê quando está cansado?

Quem escuta sua palavra

quando o sistema o quer calado?

Quem lhe pergunta o que pensa,

o que sente, o que perdeu,

quando o excesso de exigências

lhe rouba até o que é seu?

Que desprezo ao professor,

sem respeito e pagamento

Só lhe cobram rendimento,

Exigem-lhe inovação,

mas lhe negam o necessário;

querem dele transformação,

às vezes, sob um teto precário.

Segue firme, educador,

mas não confundam firmeza

com aceitar calado a dor,

nem vocação com pobreza.

O professor ilumina

as mentes do mundo inteiro,

mas também precisa de luz,

de pão, de tempo e parceiro.

Há crianças que pedem escuta,

há sofrimentos a enfrentar;

mas quando o diagnóstico vira sentença,

quem lhes devolve o direito de sonhar?

Na sociedade do cansaço,

todos devem produzir…

o sonho tem prazo, nesse caso,

e até mesmo o ócio deve servir.

E quando a máquina disser

que todas as respostas nela há,

que o professor lhe pergunte:

“Mas sabes por que pensar?”

Quando ela trouxer respostas,

que alguém ouse lhe perguntar:

“Quem ganha com essa pressa?

Quem perdemos ao acelerar?”

E que não esqueçamos, afinal,

quem sustenta a escola inteira:

é o professor, ser histórico,

que, entre o cansaço e a esperança,

ainda semeia o pensamento

onde o Poder só quer entrar na dança.

Que não lhe roubem a voz,

nem lhe reduzam o valor;

porque uma sociedade que despreza

quem ensina a pensar

pode até correr mais depressa,

pode até produzir sem parar,

mas, sem mestres respeitados,

fadado estará a colapsar.

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Ana Kelly Borba da Silva Brustolin

Doutoranda em Linguística pela UFSC, atua como professora de Língua Portuguesa e Redação e escritora, membro da Academia Desterrense de Literatura, ocupante da cadeira 6. É autora de livros e artigos na área da Língua Portuguesa, Literatura e Educação.