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A Tecitura de uma Vida Chamada Maria

Foto: Acervo Familiar

Por: Ana Kelly Borba da Silva Brustolin

09/01/2026 - 09:01 - Atualizada em: 09/01/2026 - 09:09

Em 29 de dezembro de 2025, nos despedimos da vó Maria de Medeiros da Silva, que aos 96 anos encontrou descanso depois de uma vida longa, intensa e cheia de significados compartilhados entre nós. A história dela não foi apenas vivida, mas tecida com coragem, amor e silêncio, daqueles que ensinam mais do que palavras.

Ainda muito pequena, aos quatro anos de idade, minha avó perdeu a mãe. Mamava no peito quando o colo lhe foi tirado, e cresceu carregando essa ausência no corpo e na memória. Ela me contou recentemente, com uma doçura triste, que sentia muita falta da mãe e do mamar, e que lembra de ter ficado olhando o cadáver da sua mãe na época e escondida fazer os movimentos de sucção da boca como se ainda estivesse sendo amamentada, por um longo tempo… Essa lembrança sempre me tocou profundamente, sobretudo porque, na época, eu amamentava a minha Maria. Duas Marias ligadas pelo gesto mais ancestral do cuidado.

Foto: Acervo Familiar

Minha avó cresceu em Florianópolis, criada pela madrinha, que, segundo ela, era amorosa e atenciosa (sempre foi uma verdadeira mãe para ela!). Seu pai, meu bisavô, não superou a perda da esposa e a solidão o atravessou de tal forma que ele não conseguiu retomar as rédeas da própria vida, nem criar a filha. E assim, desde cedo, minha avó aprendeu a se sustentar no mundo com a força que lhe era própria.

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Ainda jovem, Vó Maria conheceu meu avô, João Josino da Silva, e aos 17 anos casou-se com ele. Aos 20 anos já tinha cinco dos seus filhos na Lagoa da Conceição, antiga Desterro.

Meu avô, servidor público, desbravava Santa Catarina a trabalho, enquanto ela assumia a missão silenciosa e grandiosa de criar os filhos. Tinha pulso firme e coragem no olhar. Foi mãe de muitos nomes e muitas histórias: Eva Maria, Adão João (meu pai, in memoria), Madalena Maria, Maria Luiza, Wilson (in memoria), Arão João, Vera Lúcia, Leila Vilma. Arão nascido em Braço do Norte, Vera em São Amaro da Imperatriz e Leila em Indaial.

Cada nascimento marcava um novo chão,
revelando que a família não criou raízes em um só lugar. Caminhou, mudou, atravessou distâncias. Assim, a matriarca levou consigo laços, coragem e esperança, em um tempo em que muitos permaneciam onde nasciam.

A vida apresentou-lhe uma dor profunda: a perda do filho, Wilson, ainda pequeno, por volta dos três anos de idade. Ao receber a notícia no hospital, ela saiu em silêncio, voltou para a Lagoa da Conceição e buscou abrigo no choro compartilhado com familiares e amigas. Quando meu avô chegou, tudo já havia sido resolvido: o corpo enterrado, as decisões tomadas. Disseram que foi para preservá-la. Mas ela carregou até o fim a tristeza de não ter se despedido do seu menino como desejava. Algumas dores não cicatrizam, apenas se acomodam no coração.

Foto: Acervo Familiar

Meu avô partiu cedo, aos 69 anos de idade, e minha avó seguiu. Seguiu com dignidade, com firmeza e com a graça de quem aprende a caminhar mesmo depois das perdas. Teve então o privilégio de ver seus filhos crescerem, formarem famílias, tornarem-se pais e mães incríveis. Homens e mulheres inteligentes e trabalhadores. Todos a cercavam de carinho, cada um à sua maneira, como se soubessem que ela era o alicerce invisível de tudo.

Vó Maria tinha dons raros. Era rendeira da Lagoa, bordadeira de mão cheia, caprichosa em cada detalhe. Suas mãos criavam beleza. Lembro do cheirinho de limpeza da sua casa, da ordem tranquila que habitava os espaços, dos calçados sempre arrumadinhos. Ela calçava o mesmo número que eu, 34: um detalhe simples, mas que sempre me encantou, como se ali houvesse um pequeno espelho entre gerações.

Depois de bordar uma longa história no decorrer desta vida, aos 96 anos de idade, Vó Maria descansou. Cumpriu sua missão por aqui. Que privilégio o nosso ter convivido com ela por tanto tempo. Que bênção vê-la partir depois de uma vida vivida com saúde, força e lucidez, sempre consciente de quem era e do amor que a rodeava.

Vó Maria, nossa vó Malá, nós todos te amamos.
Eu te honro e te dou graças.

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Ana Kelly Borba da Silva Brustolin

Doutoranda em Linguística pela UFSC, atua como professora de Língua Portuguesa e Redação e escritora, membro da Academia Desterrense de Literatura, ocupante da cadeira 6. É autora de livros e artigos na área da Língua Portuguesa, Literatura e Educação.