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A Face do Poder

Foto: Arquivo Pessoal

Por: Ana Kelly Borba da Silva Brustolin

03/10/2026 - 08:10 - Atualizada em: 03/10/2026 - 08:55

Conheci Justino Leal quando era menino. Brincávamos juntos e desde aquela época ele já demonstrava certas ambições.

Depois, já adulto, reparei que possuía duas gravatas, três apertos de mão memoráveis e uma reputação em construção: patrimônio mais rentável que qualquer herança.

Dizem que nasceu pobre. A pobreza, entretanto, é dessas senhoras indiscretas que abandonam os filhos assim que encontram uma roupa mais elegante para vestir….

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Ele nunca renegou a origem, apenas a usava como quem exibe uma medalha em dias de cerimônia e a guarda na gaveta ao voltar para casa.

A primeira vez que o vi, usava um chapéu modesto. Não pela qualidade do feltro, mas pelo modo como o carregava: com respeito. Anos depois, continuava usando chapéu; a diferença era que já não servia para proteger do sol. Servia para aumentar a altura moral diante dos outros. O nariz também estava alto e Justino Leal não ria. Ah, há objetos que sobem de cargo antes dos homens.

Justino Leal descobriu a política como certos devotos descobrem um santo milagroso: não pela fé, mas pela fila de promessas ao redor do altar.

Começou distribuindo sorrisos e cadeiras em reuniões comunitárias. Depois passou a distribuir palavras… Importante ressaltar que as cadeiras tinham quatro pés, já as palavras, infinitos.

Logo percebeu que existiam duas espécies de discurso. Um para as praças, outro para os corredores. Na praça dizia “o povo”. No corredor dizia “os números”. Na praça falava de esperança; nos corredores (e gabinete), de conveniência. E as construções frasais eram irmãs apenas na gramática.

Foi então que conheceu os tais homens do sistema. Chamavam-se “parceiros”. E parceiro é uma palavra curiosa, porque parece abraço, contudo costuma caber melhor dentro de um envelope ou contrato assinado.

Havia um vereador antigo que lhe ensinou o primeiro mandamento.

_ Nunca negue um favor. Apenas descubra quem pagará por ele.

Justino Leal anotou prontamente, não por conta de uma memória excepcional, mas porque certas lições dispensam papel quando encontram ambição suficiente.

Subiu.

Sempre há uma escada. O detalhe é que, na política, muitas escadas são feitas de ombros. À medida que ascendia, acontecia-lhe um fenômeno semelhante ao das igrejas antigas: quanto mais alto chegava, mais distante lhe parecia o chão.

Bem, ele ainda visitava o bairro onde crescera, e, aliás, fazia questão! Chegava de carro oficial, com o seu motorista. Descia lentamente, abraçava crianças, chamava velhas conhecidas pelo nome e prometia voltar em breve. A cena se repetia com tanta perfeição que um fotógrafo comentou uma vez:

_ “Parece tão espontâneo, né?”

Justino Leal sorriu.

Espontaneidade é o ensaio que deu certo!

Com o tempo vieram os ternos melhores. Depois os relógios, os perfumes, os vinhos, as pausas. Ah, as pausas são estratégicas, já perceberam?

O homem poderoso não responde depressa, concordam? Ele faz esperar. Creio que o tempo deve lhe render juros.

Curiosamente, a voz de Justino permanecia humilde. Somente o olhar do homem é que passou a morar alguns centímetros acima das pessoas.

Numa noite de jantar reservado, ouvi um secretário dizer:

_ Precisamos preservar a imagem dele.

Ninguém perguntou onde havia sido guardada a consciência. Talvez porque consciência ocupe espaço demais nas fotografias.

Justino Leal tornou-se especialista em máscaras.

Não usava apenas uma. Ele tinha máscara para empresários, professores, religiosos, policiais, jornalistas etc. A mais valiosa, contudo, era a máscara do homem simples. Era usada justamente quando as câmeras estavam ligadas. E foi, então, que me dei conta de que as máscaras possuem um defeito pouco estudado: depois de muitos anos, deixam de cobrir o rosto e transformam-se nele.

Houve um episódio revelador.

Uma antiga professora aproximou-se dele após uma solenidade.

_ Justino Leal, você ainda é aquele menino que sonhava em mudar o mundo?

Ele respondeu imediatamente:

_ Continuo exatamente igual.

A resposta recebeu aplausos.

Mas eis que eu notei um detalhe: ele dissera “igual”, no entanto, não especificara a quem…

Assim, os acordos multiplicavam-se. Alguns eram firmados com café. Outros com vinho. Os mais relevantes dispensavam testemunhas. E Justino Leal seguira aprendendo que certas assinaturas invisíveis pesam mais do que decretos publicados.

Também aprendera uma aritmética curiosa: uma promessa quebrada valia menos do que um aliado satisfeito e um princípio flexível evitava crises. Chamavam aquilo de governabilidade. Assim, a língua portuguesa, coitada, trabalhava horas extras para vestir pecados com gravatas.

Um dia perguntaram-lhe qual era sua maior virtude.

Ele respondeu:

_ Sei dialogar com todos. Ou seja, ele sabia concordar antes de discordar e discordar sem perder o cargo. É talento raro, não nego. Tem gente que talvez chame isso de diplomacia.

Bom, os espelhos começaram a incomodá-lo. Não porque denunciassem a passagem do tempo, mas porque insistiam em devolver-lhe apenas um rosto de cada vez. Justino Leal, porém, já havia se tornado uma coleção deles.

Chegou, enfim, ao posto mais alto que imaginara. Houve discursos, bajulação, fogos, fotografias, reels, stories, posts, abraços…

Um menino pobre conseguira vencer. E os jornais, sites e redes sociais publicaram e celebraram o exemplo. Ninguém mentiu. Todos apenas esqueceram-se de perguntar quem perdera durante a subida…

Na noite da posse, Justino Leal permaneceu sozinho no gabinete. Sobre a mesa havia um espelho antigo, desses de moldura pesada. Ele olhou-se longamente… Talvez esperasse encontrar o menino do chapéu modesto. Será?!

Encontrou um homem impecavelmente vestido. A gravata estava reta, os sapatos brilhavam, o rosto também. Mas havia algo estranho. Não era o espelho que refletia Justino Leal. Era Justino Leal que parecia refletir o cargo. A diferença sutil refletia/refratava que um homem ocupava uma cadeira e que uma cadeira também podia ocupar um homem.

Encontrou um homem impecavelmente vestido. A gravata, reta; os sapatos, polidos; o rosto, brilhante de uma espécie de certeza cuidadosamente ensaiada. Havia, porém, algo estranho naquela figura. Não era o espelho que refletia Justino Leal. Era Justino Leal que parecia refletir o cargo. Talvez fosse apenas uma diferença de luz: refletir ou refratar. Mas, entre uma coisa e outra, escondia-se uma verdade incômoda: um homem podia ocupar uma cadeira, com o tempo, todavia, a cadeira também podia ocupar um homem.

Na manhã seguinte, atravessou o corredor principal. Todos se levantaram. Chamaram-no de excelência. Inclinaram a cabeça. Abriram portas.

Justino Leal caminhou satisfeito pelos corredores.

Apenas o velho engraxate permaneceu sentado, concentrado em lustrar um par de sapatos esquecidos junto à parede.

Justino Leal estranhou.

O homem levantou os olhos e disse, com a serenidade de quem conhece o valor exato da poeira:

_ Engraçado… Quanto mais alto sobe o lustre, mais precisa de pano para esconder o pó.

Justino Leal sorriu por educação e seguiu adiante.

Talvez não tivesse entendido, ou talvez tivesse entendido demais.

Eu deixaria a reflexão menos explicativa e mais ambígua, permitindo que o leitor faça a ligação entre o espelho, o poder, a corrupção e a própria sociedade. A ironia pode aparecer justamente na serenidade com que o narrador constata tudo isso.

Quanto ao espelho do gabinete, me contaram que continua lá. Não sei, nunca mais fui até lá. Contudo, suspeito que alguns objetos tenham o raro privilégio de permanecer onde os homens passam. O espelho, por exemplo, não precisa de mandato, não assina decretos, não promete nada a ninguém. Apenas fica, observa, não discute, não absolve, não aplaude.

Reflete.

Talvez seja essa a sua forma mais delicada de ironia. Porque os homens costumam acreditar que o poder lhes oferece uma nova imagem, quando talvez só lhes dê melhores condições para esconder a antiga. Com o tempo, a gravata aprende a parecer dignidade, o sorriso aprende a parecer sinceridade, a promessa aprende a parecer perspectiva.

Bom, não sei se Justino alguma vez voltou a olhar naquele espelho. Mas gosto de imaginar que, de vez em quando, ele ainda se pergunta quem está diante dele. Pode ser que o espelho não esteja ali para mostrar verdades, e sim somente para lembrar que, em certas salas, a verdade é a única coisa que ninguém precisa dizer.

E quem sabe resida aí uma grande ironia: o homem inventou o espelho para enxergar a si mesmo e passou séculos aperfeiçoando maneiras de não se reconhecer nele.

 

 

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Ana Kelly Borba da Silva Brustolin

Doutoranda em Linguística pela UFSC, atua como professora de Língua Portuguesa e Redação e escritora, membro da Academia Desterrense de Literatura, ocupante da cadeira 6. É autora de livros e artigos na área da Língua Portuguesa, Literatura e Educação.