“♫ I’ve been looking so long at these pictures of you/ That I almost believe that they’re real/ I’ve been living so long with my pictures of you/ That I almost believe that the pictures are all I can feel” (Pictures of you; The Cure)
Durante minhas idas e vindas do trabalho para casa, ou vice-versa, lavando louça ou cuidando da horta (nesses tempos de chuva contínua, praticamente nunca mais), costumo ouvir podcasts. E não é nada incomum eu ouvi-los fatiados, já que o percurso, a louça e as colheitas costumam ser menores do que as narrações.
Foi o caso do episódio do Rádio Novelo Apresenta da semana retrasada, que já começou me ensinando uma palavra nova. Em alemão: doppelgänger. A língua alemã é complexa, com composições filológicas interessantes. Traduzir essa palavra apenas como sósia talvez seja simples demais. Mas eu, como assumido desconhecedor desta língua germânica com fortes ligações saxãs, não me arrisco a explicar mais do que isso. Mas, é mais do que isso.
O fato é que uma das histórias desse episódio é sobre a professora e psiquiatra Maria Inês Quintana, diagnosticada com ELA (esclerose lateral amiotrófica) em uma forma tão agressiva que, em meses, a vida dela mudou completamente. Quando pensou em abandonar a vida, surgiu, para ela, uma tecnologia que fez com que repensasse seu futuro. Hoje ela dá aulas e palestras, e se relaciona com seus amigos, por meio de um avatar e inteligência artificial.
Espelho negro
No final da matéria, levantou-se o questionamento sobre se a professora e psiquiatra aceitaria que sua imagem, voz e estudos fossem utilizados após sua morte. A situação é muito mais complexa do que pode parecer. Ela disse que sim, que concorda que todos os seus estudos e desenvolvimentos poderiam ajudar a treinar novos psiquiatras e acompanhar novos pacientes com borderline (área de estudo dela).
Esse é o lado bom da tecnologia, mais especificamente desta tecnologia. Alguém realmente preocupada com o futuro da sociedade, sem vaidades.
Mas a criatividade e a ansiedade humanas podem ser infinitas. Há mais de sete anos, publiquei esse vídeo de uma mãe coreana revendo sua filha de seis anos falecida. É impactante e causa uma mistura de sentimentos. De lá para cá, muita, mas muita coisa mudou e evoluiu.
O que era apenas ficção da série Black Mirror parece estar se tornando assustadoramente realidade. Episódios como “Volto já” (T2/E1), no qual uma moça contrata um serviço para conversar por texto com o namorado falecido, que evolui para conversas telefônicas e, por fim, para um androide idêntico, que ela recebe em casa; ou “San Junipero” (T3/E4), em que a consciência das pessoas mortas ou quase mortas pode ser transferida para um paraíso virtual, são exemplos talvez logo cheguem ao mercado.
Falando com os mortos
Também já trouxe em outros textos esta expressão: necromancia digital. Necromancia é a suposta prática de falar com mortos. Agora, com a inteligência artificial está ficando cada vez mais fácil recriar vozes, imagens e vídeos com os jeitos e trejeitos de quem se foi.
A discussão (uma de tantas) está entre as vontades e interesses de quem se foi e as necessidades emocionais de quem ficou, como no caso da mãe coreana acima.
Artistas, sob outra ótica, estão preocupados com o que pode ser feito com suas imagens quando já estiverem no além. Ou, mais complexo ainda, com a possibilidade de criação de “obras novas” suas com base no seu repertório e histórico.
De todas as minhas dúvidas sobre o assunto, tenho uma certeza: temos todos, ainda, muito o que aprender com esse tipo de tecnologia, dos limites éticos às consequências psicológicas, passando por um vasto campo de conhecimentos. Não sei se já estamos preparados para isso…