Não há mais razão para falar em desespero. A palavra agora é descaramento. Lula busca um quarto mandato e transformou a reta final da campanha numa liquidação eleitoral bancada pelo contribuinte.
Ainda reclama do TSE, insinuando favorecimento a Flávio Bolsonaro. É de uma desfaçatez monumental. O governo dispara medidas às vésperas da votação, enquanto instituições rigorosas com os conservadores assistem a tudo no mais obsequioso silêncio.
Pacote sem freio
Perdão de dívidas para microempreendedores, dinheiro a fundo perdido, subsídios aos combustíveis e ampliação de programas sociais. Levantamentos públicos situam o pacote entre R$ 250 bilhões e R$ 300 bilhões. Uma verdadeira montanha de dinheiro mobilizada num ano eleitoral, com as novidades concentradas na reta final.
Passe livre eleitoral
A mais recente extravagância veio nesta quinta-feira. Lula anunciou uma PEC para garantir transporte gratuito nos fins de semana, financiado parcialmente por emendas parlamentares.
A proposta surge dez dias antes da eleição. Estudos preliminares indicaram custo superior a R$ 80 bilhões. Não há texto ou fonte segura. Há um vídeo, uma promessa e uma urna adiante.
Flávio resumiu com ironia certeira: a picanha agora vai chegar de ônibus no fim de semana.
Improviso no trabalho
O Senado aprovou o fim da escala 6×1, reduzindo a jornada semanal para 40 horas. O trabalhador merece descanso. Mas mudança dessa dimensão não pode ser tratada como panfleto eleitoral.
Comércio, indústria, saúde e serviços exigem transição. Sem isso, o custo aparece em preços, produção e empregos. A caneta eleitoral escreve rápido. A conta chega depois.
Prefeituras pagam
A Confederação Nacional de Municípios calcula impacto anual de quase R$ 5,5 bilhões nos contratos terceirizados. Com contratações diretas, chega a R$ 6,6 bilhões.
Municípios estrangulados terão de rever serviços essenciais. Brasília distribui o aplauso. Os prefeitos recebem a conta.
Silêncio conveniente
Imagine Jair Bolsonaro anunciando, a dez dias da eleição, semelhante sucessão de benefícios. Supremo, TSE, esquerda e grande parte da imprensa estariam em estado de guerra.
Agora, nada. Nem indignação, nem rigor, nem sermão republicano. Apenas silêncio. Subserviente e politicamente conveniente.
Reeleição em xeque
Esse espetáculo reforça a necessidade de acabar com a reeleição presidencial. Flávio protocolou em fevereiro uma PEC que impede o presidente de disputar o período subsequente. Se eleito, não concorreria novamente em 2030.
Lula mergulhou. Não toca no assunto. Depois de o PT ocupar o Planalto durante 18 dos últimos 25 anos, pretende alcançar o quarto mandato e conservar a máquina permanente de campanha.
A criatividade que faltou para governar sobrou para permanecer no poder.
Datafolha não salvou Lula
Mesmo depois da enxurrada de anúncios, o Datafolha mostrou Flávio com 47% e Lula com 45% dos votos totais. Flávio perdeu dois pontos; Lula permaneceu onde estava. A oscilação foi para brancos, nulos e indecisos — não para o petista.
Nos votos válidos, são 51% a 49%. A rejeição de Lula continua maior: 46% contra 44%. É empate técnico, mas com Flávio numericamente à frente e o governo despejando tudo o que pode na praça.
O eleitor percebeu
A pergunta é elementar: se todas essas maravilhas eram tão urgentes e possíveis, por que só apareceram agora?
A resposta está no calendário. Não é política pública amadurecida. É tentativa escancarada de recuperar votos depois de quase quatro anos de gastança, descontrole e promessas descumpridas.
Não há mais limite ou pudor. O poder virou prioridade absoluta.
Frente a frente
As atenções se voltam aos debates. Lula chegará carregando o peso do governo, a rejeição maior e a pergunta: por que deixou tudo para os últimos dias?
Não é mais desespero. É descaramento eleitoral. E o eleitor já percebeu.