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Gente feliz não vira hater

Foto: Magnific

Por: Raphael Rocha Lopes

07/10/2026 - 06:10

“♫ Gente feliz não se incomoda com os outros/ Cada um tem sua maneira de existir/ Se cuide para não ficar amargurado” (Gente feliz; Vanessa da Mata)

Existe, na sabedoria popular, a ideia de que pessoas felizes costumam ter pouco tempo disponível para atormentar os outros, especialmente pessoas que não são do seu círculo. Quem está razoavelmente satisfeito com a própria vida encontra ocupações mais interessantes do que entrar no perfil de alguém que nunca viu para dizer que ele é feio, incompetente, ridículo.

As redes sociais, entretanto, deram visibilidade extraordinária a um personagem que sempre existiu. O sujeito amargo da família, o vizinho que cuida da vida alheia e o conhecido que encontra defeito em tudo tinham um alcance limitado. Suas opiniões circulavam entre poucos e normalmente terminavam na mesma mesa em que começavam. A internet entregou a esse comportamento uma audiência potencial de milhões.

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E quem nasce?

Nasceu, assim, uma figura que ficou conhecida como hater, ou, em português direto, odiador. De toda forma, a palavra estrangeira que se popularizou modernizou um comportamento bastante antigo: sentir prazer em diminuir o outro.

É interessante observar que o odiador raramente se limita a evitar aquilo que não gosta. Ele acompanha, volta, comenta, compartilha para criticar. Às vezes conhece detalhes impressionantes da vida de alguém que afirma detestar.

Há pessoas que acompanham diariamente influenciadores, artistas e até desconhecidos exclusivamente para encontrar alguma coisa que justifique uma nova manifestação de desprezo. Essa dedicação ao desafeto talvez seja uma das maiores curiosidades psicológicas da vida digital.

A culpa é do algoritmo

Mas não só! O algoritmo ajuda a explicar parte do fenômeno porque não possui qualquer compromisso com a felicidade de quem está diante da tela. Sua tarefa é manter atenção. Indignação, raiva, inveja e ressentimento são sentimentos bastante eficientes para isso. Uma pessoa irritada pode permanecer muito mais tempo discutindo uma publicação do que permaneceria contemplando algo que simplesmente considera agradável.

Com isso, as redes acabaram criando uma espécie de economia da irritação. Quanto mais alguém provoca, mais comentários recebe. Quanto mais comentários recebe, maior pode ser sua distribuição. E o odiador recebe uma nova oportunidade para continuar indignado, satisfazendo-se com isso.

Há também um aspecto que diverge do mundo real: a ausência das consequências imediatas da crueldade. Dizer pessoalmente a alguém que ela é horrorosa exige encarar seu rosto, perceber sua reação e conviver com o constrangimento provocado.

Escrever a mesma coisa em um comentário leva poucos segundos. A tela cria distância suficiente para transformar a outra pessoa em personagem. O odiador, com sua covardia imanente, sente-se seguro. Talvez por isso tanta gente escreva na internet coisas que jamais diria no tête-à-tête.

Ser feliz incomoda

Há pessoas felizes e outras que fingem ser, e quando publicam suas felicidades, genuínas ou não, a comparação incomoda o hater, e diminuir quem está do outro lado pode produzir um pequeno conforto. Ele sempre vai achar que o bonito é artificial, o rico é desonesto, o bem-sucedido teve sorte e o casal feliz certamente está fingindo. É, no fundo, um espelho da própria frustração.

Não trato, aqui, da crítica. A crítica é indispensável, inclusive nas redes sociais, e discordar publicamente de alguém faz parte de uma sociedade saudável. O problema começa quando desaparece qualquer interesse pela ideia discutida e sobra apenas a vontade de ferir quem a expressou.

Talvez Vanessa da Mata tenha resumido bem algo que os algoritmos transformaram em fenômeno mundial. Pessoas felizes também reclamam, discordam, perdem a paciência e têm dias ruins. Felicidade nunca foi estado permanente de serenidade. Mas quem encontra algum sentido na própria existência tende a precisar menos da infelicidade alheia para suportá-la.

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Raphael Rocha Lopes

Advogado, autor, professor e palestrante focado na transformação digital da sociedade. Especializado em Direito Civil e atuante no Direito Digital e Empresarial, Raphael Rocha Lopes versa sobre as consequências da transformação digital no comportamento da sociedade e no direito digital. É professor da Faculdade de Direito do Centro Universitário Católica Santa Catarina e membro da Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs.