“♫ Up above, aliens hover/ Making home movies for the folks back home/ Of all these weird creatures who lock up their Spirits/ Drill holes in themselves and live for their secrets” (Subterranean homesick alien; Radiohead)
Indiscutivelmente, há alguma coisa estranha acontecendo com as crianças e os adolescentes nas redes sociais.
Nos Estados Unidos, a Meta aceitou pagar uma conta que pode chegar a US$ 18 bi para encerrar ações movidas por praticamente todos os estados americanos relacionadas aos efeitos do Facebook e do Instagram sobre crianças e adolescentes.
A questão, porém, é muito maior do que apenas dinheiro. A empresa também terá que mudar a maneira como seus produtos funcionam. Entre as medidas estão limites de utilização, restrições durante determinados horários, maior controle dos pais, redução de notificações, proteção contra conteúdos e mecanismos mais rigorosos de controle de idade. Os adolescentes terão o tempo de uso limitado a duas horas por dia, salvo autorização dos pais. As mudanças deverão permanecer por pelo menos uma década.
E o que diferencia dos jovens brasileiros?
Essa situação levanta uma pergunta incômoda e que todo pai, mãe, professor e político brasileiros deveriam se fazer: por que aquilo que passou a ser considerado perigoso para crianças e adolescentes americanos não o é no mesmo grau para crianças e adolescentes brasileiros? Se alguém tiver uma justificativa, estou aberto à conversa e ao aprendizado.
Aqui no Brasil, o ECA Digital entrou em vigor em 2026 e estabeleceu novas obrigações para plataformas digitais, incluindo mecanismos de proteção de crianças e adolescentes. Nesse contexto, a própria Meta criou, aqui, as Contas de Adolescente do Instagram, com algumas restrições. A empresa também anunciou recursos adicionais de supervisão parental. É um progresso importante, mas não suficiente.
Ou seja, no Brasil, as crianças e adolescentes não estão completamente desprotegidos, mas a comparação ainda continua desconfortável.
Diferenças
Existe uma diferença entre ter mecanismos de proteção e ser obrigado a reconhecer que o próprio modelo de negócio pode produzir riscos suficientemente graves para justificar bilhões de dólares em indenizações e restrições profundas de funcionamento. Nos Estados Unidos, a discussão chegou nesse ponto. Os acordos demonstram isso e ocorreram depois de processos de responsabilização da empresa por condutas relacionadas a danos à saúde mental de crianças e adolescentes.
Não se trata de uma preocupação abstrata de pais desconfiados da tecnologia. São governos, tribunais, investigações e bilhões de dólares envolvidos. No Brasil, esta discussão ainda parece estar a anos-luz de distância.
É necessário entender que no mundo da tecnologia produtos são desenvolvidos, lançados, testados em milhões de pessoas e, somente depois que aparecem consequências suficientemente graves, começam as perguntas sobre segurança.
Entretanto, eu entendo que quando o produto envolve crianças, a lógica deveria ser oposta. Criança não deve ser grupo de teste. Não deve ser cobaia. Antes deveria ser demonstrado que determinado mecanismo é seguro para apenas depois ser oferecido a essa população vulnerável.
Crianças e adolescentes não têm maturidade neurológica, emocional ou social e nem capacidade de compreender como mecanismos de recomendação, notificações, recompensas, filtros, curtidas e rolagem infinita podem capturar sua atenção.
Cobaias
Quanto vale uma criança brasileira para uma plataforma global? Quanto uma empresa está disposta a pagar para mudar seu comportamento? Qual o valor necessário para dizer que uma decisão deixou de ser uma escolha comercial e passou a representar um risco jurídico, econômico e reputacional?
Se esse risco é reconhecido quando o usuário está nos Estados Unidos, mas a proteção é mais flexível quando ele está no Brasil, é legítimo perguntar se estamos diante de uma diferença regulatória ou de uma diferença de valor social! A título de comparação, no segmento de alimentação, se o leitor pesquisar, vai verificar que muita coisa que é vendida no hemisfério sul não é aceita lá em cima.
Será que, no mercado tecnológico, estão transformando as crianças brasileiras em cobaias? Um mercado com fiscalização frágil, responsabilização lenta e consequências econômicas menores, acaba funcionando, na prática, como ambiente de experimentação muito mais permissivo.
Chegou a hora de perguntar se o Brasil vai tomar atitudes mais efetivas antes ou depois de descobrir, em nossas próprias crianças, aquilo que outros países já descobriram nas suas.