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Pesquisa sobre bordados de Joinville chega à reta final e revela história de mulheres e tradições têxteis

Lori Altmann | Foto: Gabriel Bazt

Por: Elisângela Pezzutti

28/08/2026 - 13:08 - Atualizada em: 28/08/2026 - 13:40

O bordado está entre os ofícios manuais mais antigos da humanidade e carrega, em cada ponto, aspectos sociais, artísticos e culturais de diferentes épocas. Em Joinville, a prática chegou na bagagem dos imigrantes europeus e se consolidou ao longo do século 19 e o início do século 20, quando grupos de senhoras passaram a se reunir nos tradicionais Kränzchen — encontros que uniam o bordado à troca de vivências do cotidiano da pequena colônia. É esse percurso, pouco documentado até hoje, que o projeto Linhas de Histórias se propõe a resgatar. A pesquisa está agora em sua fase final e promete reescrever um capítulo importante da memória têxtil e cultural da região de Joinville.

Coordenado pela pesquisadora Ana Gern, o estudo é dedicado a mapear a trajetória do bordado na região de Joinville. A equipe cruzou documentos históricos com a voz viva das bordadeiras. Foram entrevistadas 25 pessoas ligadas ao universo dos bordados, além de visitas a cinco grupos que mantêm essa tradição viva.

“Existe uma riqueza enorme de histórias por trás de cada ponto, de cada peça bordada, e isso praticamente não tinha sido documentado. Fomos atrás dessas mulheres, de seus relatos e das técnicas que aprenderam, muitas vezes dentro de casa, para registrar essa memória antes que ela se perca”, conta Ana Gern.

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Foram entrevistadas 25 pessoas ligadas ao universo dos bordados, além de visitas a cinco grupos que mantêm essa tradição viva | Foto: Gabriel Bazt

Bordados representativos da tradição joinvilense

Ao longo da pesquisa, a equipe mergulhou em acervos do Arquivo Histórico de Joinville, incluindo jornais em alemão e português, boletins e manuais. Do cruzamento entre documentos e depoimentos, emergiram cinco bordados representativos da tradição joinvilense:

  • o bordado Ilha da Madeira;
  • o bordado em ponto cheio reto;
  • o bordado em meio ponto;
  • o bordado em ponto cruz duplo sobre tecido xadrez;
  • e o pano bordado Wandschoner.

Cada um dos cinco bordados dará origem a um vídeo curto e a um catálogo digital, que contará com recursos de acessibilidade. Ambos contarão as histórias e o processo de execução de cada tipo de bordado e serão de acesso gratuito a toda comunidade.

Aos 92 anos, Dona Ondina Kunde continua bordando em ponto cruz e desenha riscos para bordados | Foto: Gabriel Bazt

Curiosidades que encantam

Entre os achados mais fascinantes está um manual alemão de bordado, publicado entre as décadas de 1920 e 1930, que descrevia as peças têxteis de um enxoval de cozinha. Entre elas, está o Wasserleitungsschoner: proteger a parede dos respingos de água junto à pia, o explica o modelo ter uma abertura para ser encaixado na torneira. Esse detalhe doméstico revela hábitos de organização e estética do cotidiano das famílias alemãs.

Outra peça do enxoval de cozinha era o Wandschoner, um bordado decorativo utilizado normalmente atrás do fogão. Ambos modelos costumavam ser usados pelas famílias de imigrantes alemães em Joinville.

A pesquisa também resgatou o papel dos Kränzchen, os tradicionais encontros em que grupos de senhoras se reuniam para bordar, conversar e fortalecer os laços da colônia. Um espaço de sociabilidade que, guardadas as proporções, ainda hoje se reproduz nos grupos de bordadeiras visitados pelo projeto.

Foto: Gabriel Bazt

Histórias de mulheres, do passado ao presente

Por trás dos pontos, há histórias de vidas inspiradoras. Aos 92 anos, Dona Ondina Kunde continua bordando em ponto cruz e desenha riscos para bordados. Já dona Lori Altmann, 75 anos, é especialista no ponto cheio reto e integra o Grupo de Mulheres Rurais da Estrada Palmares. São elas, e dezenas de outras, as verdadeiras protagonistas desta história que estava prestes a se perder.

Exposição e catálogo em novembro

Os resultados da pesquisa serão apresentados ao público na exposição Linhas de Histórias, com abertura gratuita no dia 7 de novembro de 2026, no Instituto Juarez Machado (rua Lages, 994, América, Joinville/SC). A mostra reúne vídeos, documentos e bordados pesquisados. Depois, todo o material, incluindo os dez vídeos com entrevistas e o catálogo digital, ficará disponível de forma permanente e gratuita na internet. Parte do processo também pode ser acompanhado pelo perfil no Instagram @linhasdehistorias.

Além da coordenação de Ana Gern, o trabalho conta com a colaboração das pesquisadoras Dietlinde Clara Rothert e Terezinha Hoegen e da jornalista e escritora Maria Cristina Dias.

O projeto é realizado por meio do Programa de Incentivo à Cultura (PIC), do Governo do Estado de Santa Catarina, aprovado pela Fundação Catarinense de Cultura, com apoio do Instituto Juarez Machado, do Arquivo Histórico de Joinville e do Museu Nacional de Imigração e Colonização, e incentivo do Grupo Tigre, por meio do Instituto Carlos Roberto Hansen.

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Elisângela Pezzutti

Graduada em Comunicação Social pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Atua na área jornalística há mais de 25 anos, com experiência em reportagem, assessoria de imprensa e edição de textos.