“♫ De repente, a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa/ Morna e ingênua, que vai ficando no caminho/ Que é escuro e frio, mas também bonito, porque é iluminado/ Pela beleza do que aconteceu a minutos atrás” (Poema; Cazuza – Ney Matogrosso).
A música Poema era originalmente um poema escrito por Cazuza aos seus 17 anos para sua avó. É um texto de ternura e conforto no ambiente familiar, de carinho e de sensação de proteção. O poema ficou por mais de vinte anos guardado até voltar à tona, após a morte do Cazuza e, depois, de sua avó.
Quando a mãe do Cazuza, Lucinha Araújo, se deparou com o poema (sua sogra deixou alguns pertences para ela, o poema entre eles), por achá-lo tão belo, levou-o a Frejat para que ele transformasse em música. Depois entregaram para Ney Matogrosso gravá-la.
Pesadelos
Muitos, hoje, têm pesadelo e levantam atentos, nem sempre a tempo, com medo, muitas vezes sem saber do quê. Do passado, do presente, do futuro, dependendo da idade, talvez. De um passado pré-guerra que parece se repetir, tanto forte que está o esquecimento seletivo da história; de um presente sem tolerância, polarizado e afundado em uma bacia rasa de informações; de um futuro possivelmente dominado por algoritmos e inteligências artificiais e sabe-se lá mais o que vem pela frente.
Como escreveu Cazuza, de repente, a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa, morna e ingênua, que vai ficando no caminho. Quem sabe aquela vontade de ajudar a melhorar o mundo mais do que ter razão, que está, aos poucos, sendo sufocada por tanta gente com razão e certeza sobre tudo.
Lembranças
E a gente lembra de quando as coisas pareciam um pouco menos complexas. Morna, não de sem graça, mas de equilíbrio, de sensatez, de ponderação. Um escuro iluminado, cuja beleza é natural, de recordações mais perenes do que os vídeos de quinze segundos das redes sociais que estão fritando os cérebros de crianças, jovens, adultos e idosos.
Não que não houvesse problemas, diferenças, intolerâncias e bizarrices. Havia, claro. Hoje, contudo, tudo parece estar amplificado e mais rápido. E em todos os lugares!
A gente também lembra, ou deveria lembrar, da ingenuidade das crianças, que agora estão contaminadas pelo excesso de informações das redes e das certezas dos pais, pelo menos daqueles que não conseguem ver todas as cores entre o preto e o branco e nem quanto tempo seus filhos passam nos celulares.
Hoje a gente acorda com medo, mas não chora nem reclama, com lembranças do que ainda não aconteceu.