Clique aqui e receba as notícias no WhatsApp

Whatsapp

Família Zanotti resgata origem agrícola e preserva história de quatro gerações em museu em Massaranduba

Foto: Acervo familiar

Por: Renan Cesar Ribas

21/08/2026 - 17:08 - Atualizada em: 21/08/2026 - 17:56

Antes das fábricas, dos negócios e das conquistas construídas ao longo de décadas, a família Zanotti tinha uma vida simples na roça. É essa origem que foi resgatada por meio de um novo museu. Com itens revitalizados por Nelson Zanotti, o espaço reúne ferramentas e objetos que pertenceram aos pais, avós e bisavós da família e busca manter viva a memória de uma trajetória que começou na agricultura e passou por diferentes gerações até chegar à realidade atual.

A iniciativa foi idealizada para que filhos, netos e bisnetos conheçam o caminho percorrido pelos antepassados e entendam que a realidade atual da família não surgiu de forma repentina. Existia uma propriedade, onde o trabalho era manual e a produção servia, principalmente, para garantir o sustento da casa.

“É um museu agrícola mesmo. A origem da origem da origem”, resume Nelson Zanotti, que ficou responsável por cuidar da restauração e organização do acervo.

Clique e assine o Jornal O Correio do Povo!

A história da família passa por diferentes gerações. Os avós paternos de Nelson eram Ricardo Zanotti e Gasparina Zanotti. Pelo lado materno, os avós eram Vicente Safanelli e Julia Safanelli. Nelson é filho de Vicente Zanotti e Gertrudes Zanotti e o mais novo entre sete irmãos: Lorita, Valdemar, Nair, Salete, Valdir, Valdemiro e Nelson.

Família Zanotti – Foto: Acervo familiar

Parte dos irmãos mais velhos nasceu no Primeiro Braço, região próxima a Luís Alves. Depois, a família se estabeleceu em Jaraguá do Sul, onde Nelson nasceu e onde a família vive há cerca de 65 anos.

Os pais, segundo Nelson, eram pessoas humildes e não tiveram acesso à escola. Mesmo assim, tinham uma preocupação que acabou sendo determinante para o futuro dos filhos: todos deveriam estudar e buscar uma vida diferente daquela que eles próprios tiveram.

Nelson Zanotti – Foto: Fábio Junkes/OCP News

A família era grande e os recursos eram limitados. Por isso, à medida que chegavam à adolescência, os filhos começaram a procurar emprego e construir seus próprios caminhos.

Nelson, por exemplo, fez o Centro WEG e depois trabalhou na empresa até os 22 anos. Ele conta que chegou à chefia aos 19 anos e, aos 21, foi escolhido para ser gerente. A trajetória, porém, foi interrompida após a morte do pai, quando decidiu voltar para casa para cuidar da mãe.

Foi nesse retorno que surgiu uma nova etapa de sua vida.

Com o conhecimento adquirido na formação e na experiência profissional, Nelson decidiu montar uma fábrica de peças plásticas em Jaraguá do Sul. A área já fazia parte de sua experiência profissional e acabou se transformando em seu caminho empresarial.

“Era o que eu sabia fazer, era injetar plástico”, conta.

Os irmãos também seguiram caminhos diferentes. Lorita, Nair e Salete atuaram na educação. Lorita foi professora e diretora do Dom Batista, em Jaraguá do Sul, além de ter exercido mandato como vereadora. Nair foi professora e diretora do Antônio Zimmermann, em Guaramirim, e depois de se aposentar criou uma fábrica de biquínis. Salete também foi professora e diretora.

Entre os homens, os caminhos passaram principalmente pela indústria. Valdemar trabalhou durante anos na indústria têxtil Lumière, em Joinville, fez curso técnico no Rio de Janeiro e posteriormente criou uma fábrica de elásticos. Valdomiro também passou pela WEG antes de seguir para o setor de eletrônicos e estabelecer uma empresa em Blumenau. Valdir atuou no segmento de malharia. Nelson, por sua vez, trabalhou na WEG até os 22 anos e, após a morte do pai, deixou a empresa para cuidar da mãe. Com a experiência adquirida no setor plástico, montou sua primeira fábrica em Jaraguá do Sul e, depois, levou o negócio para Massaranduba, onde mantém a empresa há décadas.

Cada um construiu sua própria trajetória profissional e empresarial. Mas, para Nelson, existe um ponto em comum entre todos: a origem na pequena propriedade rural da família.

Ferramentas que contam uma história

É justamente essa origem que o museu procura preservar.

O acervo não reúne máquinas das empresas criadas pelos irmãos. As peças representam uma etapa muito anterior, quando a família ainda vivia da agricultura.

Entre os objetos estão arados, capinadeiras, machados, enxadas, tachos de melado, alambiques e outras ferramentas utilizadas no trabalho rural.

Foto: Acervo familiar

Algumas peças vieram da Itália. Outras foram construídas pelos próprios antepassados da família no Brasil, em uma época em que comprar equipamentos prontos não era uma realidade acessível.

Cada objeto carrega, portanto, uma parte da história.

Foto: Acervo familiar

Nelson lembra, por exemplo, dos tachos de cobre utilizados na produção de melado. Diferentemente dos processos industriais atuais, a fabricação era totalmente manual. Eram necessárias inúmeras marteladas para moldar o cobre até chegar ao formato desejado.

Para ele, observar uma peça dessas atualmente ajuda a compreender a dimensão do esforço feito pelas gerações anteriores.

O trabalho na propriedade também era diversificado. A família cultivava milho verde, aipim, batata, banana, frutas, verduras e pepino, além de manter criação de gado para produção de leite.

O milho verde era uma das principais fontes de renda, mas a variedade da produção tinha outra função: garantir que a família tivesse alternativas para sobreviver.

Foto: Acervo familiar

Se uma cultura apresentasse problemas, outra poderia ajudar a compensar.

O que era produzido tinha como destino principal a própria família. O excedente podia ser vendido ou trocado.

Essa lógica fazia parte do cotidiano. Os agricultores também trocavam dias de trabalho. Quando uma família precisava de ajuda em uma determinada colheita, outras pessoas colaboravam e, posteriormente, recebiam ajuda de volta.

Era uma forma de trabalho baseada na necessidade e na cooperação entre as famílias da região.

Os antepassados também percorriam longas distâncias para conseguir produtos que não eram produzidos na propriedade. Segundo Nelson, seus bisavós chegavam a ir de cavalo até Itajaí para trocar produtos como banha e melado por condimentos. Posteriormente, a família fazia trocas e compras em Jaraguá do Sul.

Era uma realidade completamente diferente da atual.

Foto: Acervo familiar

A memória como legado

A decisão de restaurar os objetos surgiu justamente diante do risco de que essa história desaparecesse.

Nelson conta que os irmãos conversaram sobre o assunto e perceberam que, com o passar do tempo, casas são demolidas, objetos são descartados e histórias deixam de ser contadas.

A proposta do museu foi criar um lugar permanente para preservar aquilo que representa a origem da família.

O espaço foi montado em Massaranduba, na propriedade de Nelson, depois que os irmãos decidiram que alguém precisaria assumir a responsabilidade pela restauração dos equipamentos.

A intenção principal não é transformar o local em uma exposição sobre as empresas da família, mas manter registrada a trajetória agrícola que antecedeu todas elas.

“Não é um museu da história da minha fábrica. É um museu agrícola”, explica.

Essa distinção também ajuda a entender a mensagem que a família pretende transmitir.

A transformação foi gradual.

A pequena propriedade rural não desaparece da história por causa das empresas que surgiram depois. Pelo contrário. É justamente ela que explica a trajetória.

De agricultores a empresários

A história dos Zanotti também mostra uma característica comum em muitas famílias que ajudaram a desenvolver Jaraguá do Sul e municípios da região: a passagem do trabalho rural para a indústria e o empreendedorismo.

Nelson não vê essa mudança como uma ruptura com o passado, mas como consequência das escolhas feitas pelos pais.

Vicente e Gertrudes, mesmo sem terem frequentado uma escola, entendiam que os filhos precisavam estudar e buscar oportunidades.

Os filhos não deveriam simplesmente repetir a trajetória dos pais. Deveriam aproveitar os valores recebidos e construir algo novo.

Essa orientação levou os irmãos a diferentes profissões e, posteriormente, a diferentes negócios.

Hoje, segundo Nelson, as empresas construídas pelos irmãos e pelas gerações seguintes somam milhares de empregos.

Mas, para ele, o número de funcionários ou o tamanho das empresas não é o que deve definir a história da família.

O mais importante é lembrar o ponto de partida.

Por isso, a proposta do museu também está relacionada à sucessão familiar. Nelson entende que uma nova geração pode crescer sem conhecer as dificuldades enfrentadas pelos antepassados. Quando isso acontece, existe o risco de o patrimônio ser visto apenas como algo pronto. A família procura combater justamente essa percepção.

Por isso, filhos e netos são incentivados a conhecer a trajetória da família. Alguns trabalham nas empresas, outros seguem profissões diferentes e há também aqueles que ainda estão estudando.

O objetivo é que todos saibam que a estrutura atual nasceu de uma realidade completamente diferente.

Um espaço para as próximas gerações

O museu foi pensado principalmente para a família, mas a mensagem ultrapassa os Zanotti.

Nelson acredita que outras famílias também podem olhar para suas próprias histórias e preservar objetos que, à primeira vista, parecem sem valor.

Uma ferramenta antiga pode parecer apenas uma ferramenta. Dentro de uma família, porém, pode representar o trabalho de um avô, de um bisavô ou de alguém que ajudou a construir as condições para que as gerações seguintes tivessem uma vida diferente. É essa perspectiva que dá sentido ao espaço.

Nesol Zanotti – Foto: Fábio Junkes/OCP News

Antes das máquinas modernas, havia ferramentas manuais. Antes da produção em escala, havia uma pequena propriedade que precisava produzir diferentes alimentos para garantir o sustento.

E antes dos empresários, havia pais que, mesmo sem terem frequentado uma escola, incentivaram os filhos a estudar e procurar novas oportunidades.

A história também ajuda a compreender a formação da própria região. Para Nelson, Jaraguá do Sul e municípios próximos são resultado da contribuição de diferentes famílias e grupos que chegaram ao longo do tempo. Italianos, alemães, poloneses e pessoas vindas de outras regiões ajudaram a construir a identidade local.

O desenvolvimento atual é, portanto, consequência de uma trajetória que começou muito antes das grandes empresas e das estruturas conhecidas atualmente.

No caso dos Zanotti, a história começa na roça, passa pela educação, pelo emprego e chega ao empreendedorismo. Mas, ao contrário de encerrar essa trajetória nas empresas, o museu volta ao começo.

Porque, para Nelson, conhecer a origem não significa viver no passado.

Significa entender o caminho que trouxe a família até o presente — e garantir que as próximas gerações não esqueçam que, antes de existir tudo aquilo que hoje parece natural, alguém precisou começar.

 

Clique aqui e receba as notícias no WhatsApp

Whatsapp

Renan Cesar Ribas

Jornalista formado pela Universidade Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó), com mais de 14 anos de experiência.