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Como Jaraguá do Sul se tornou berço de multinacionais brasileiras

Por: OCP News Jaraguá do Sul

22/08/2026 - 07:08 - Atualizada em: 23/08/2026 - 17:57

Por Dyovana Koiwaski

Especial para o OCP

Para muitos brasileiros, Jaraguá do Sul pode passar despercebida no mapa. Sem o tamanho das capitais ou dos grandes centros urbanos do País, a cidade do Norte catarinense construiu, longe dos holofotes, um dos ecossistemas industriais mais fortes e internacionalizados do Brasil.

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É daqui que saem motores elétricos utilizados em diversos continentes, ingredientes presentes na indústria alimentícia global, produtos têxteis exportados para vários mercados e equipamentos industriais que abastecem cadeias produtivas em diferentes países. Empresas como WEG, DR Aromas & Ingredientes, Grupo Malwee, Grupo Lunelli, Marisol e Menegotti ajudaram a transformar a cidade em uma referência nacional em indústria, inovação e exportação.

Com PIB per capita em torno de R$ 84,9 mil (dados do IBGE 2023), um dos mais altos de Santa Catarina, Jaraguá do Sul construiu um modelo raro no Brasil: forte industrialização, renda elevada, qualidade de vida e presença global concentradas em um município de porte médio.

Foto: WEG/Divulgação

A base construída pelos imigrantes

A origem desse desenvolvimento está diretamente ligada ao processo de colonização do Vale do Itapocu, no fim do século 19 e início do século 20. A cidade foi formada principalmente por imigrantes alemães, italianos e húngaros, que trouxeram características que moldaram profundamente a cultura econômica da região.

Valores como disciplina, organização comunitária, educação técnica, produção familiar, cooperativismo e valorização do trabalho ajudaram a criar um ambiente favorável ao empreendedorismo. Diferentemente de regiões brasileiras marcadas por grandes latifúndios, o desenvolvimento local nasceu de pequenas propriedades, oficinas, marcenarias, serrarias e fábricas familiares que cresceram ao longo das décadas.

Essa relação próxima entre família, comunidade, escola, igreja e trabalho consolidou uma cultura voltada ao crescimento sustentável e ao planejamento de longo prazo. O reinvestimento constante nas empresas e a busca por qualificação profissional também se tornaram características históricas da região.

Cultura industrial e empreendedorismo

Ao longo do século 20, o Norte catarinense desenvolveu um ambiente industrial altamente integrado. Jaraguá do Sul passou a reunir metalurgia, mecânica, automação, têxtil, alimentos e tecnologia dentro de um mesmo ecossistema produtivo.

Esse ambiente ajudou no surgimento e expansão de empresas que hoje possuem atuação internacional. Fundada em 1961, a WEG nasceu em uma pequena estrutura em Jaraguá do Sul produzindo motores elétricos. A ideia surgiu a partir da percepção de Eggon João da Silva sobre a dificuldade de encontrar motores de qualidade no Brasil.

Décadas depois, a empresa se tornou uma das maiores fabricantes de motores elétricos do mundo, expandindo atuação também para energia, automação, tintas industriais, geração solar e mobilidade elétrica.

Segundo o vice-presidente da Divisão Internacional da WEG, Anderson Fernandes, Jaraguá do Sul permaneceu como base estratégica da companhia mesmo após sua expansão global porque a cidade representa a essência da cultura construída pelos fundadores Werner Ricardo Voigt, Eggon João da Silva e Geraldo Werninghaus. “Jaraguá do Sul não é apenas o berço da WEG, mas um elemento essencial de sua cultura e identidade”, destaca.

Para Fernandes, o município sempre teve forte cultura de trabalho, empreendedorismo e inovação, influenciada principalmente pela imigração europeia. Esse ambiente favoreceu o crescimento de empresas industriais focadas em eficiência operacional, visão de longo prazo e crescimento sustentável.

Anderson Fernandes, vice-presidente da Divisão Internacional da WEG | Foto: Divulgação/WEG

Outro diferencial apontado pela companhia foi o desenvolvimento de um ecossistema industrial colaborativo. A interação entre empresas, fornecedores, instituições de ensino e entidades empresariais fortaleceu a troca de experiências, a inovação e a competitividade global das indústrias locais.

A estrutura logística também teve influência importante nesse desenvolvimento. A antiga ligação ferroviária da região facilitava a conexão entre o Norte catarinense, o Rio Grande do Sul e os portos, contribuindo para o escoamento da produção e expansão das indústrias locais ainda nas primeiras décadas do século 20.

Foto: WEG/Divulgação

Qualificação e inovação como pilares

A formação técnica da mão de obra é outro ponto frequentemente citado pelas empresas como decisivo para o crescimento econômico da cidade.

A WEG destaca que investe desde o início de sua trajetória na capacitação de profissionais da região. Um dos principais exemplos é o CentroWEG, criado em 1968 e voltado à formação de jovens para atender às demandas da indústria. O modelo busca reproduzir o ambiente fabril e aproximar os alunos da cultura organizacional da companhia desde o início da formação profissional.

Conforme o vice-presidente da Divisão Internacional da WEG, Anderson Fernandes, essa base técnica qualificada permite desenvolver equipes preparadas para atuar com tecnologias avançadas e acompanhar as transformações de um mercado global cada vez mais exigente.

A inovação aparece como um dos principais motores desse desenvolvimento. Em Jaraguá do Sul está localizado o Centro Tecnológico WEG, principal polo de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e engenharia da companhia.

 

Mundo afora

Esse foco em inovação também está presente na trajetória da DR Aromas & Ingredientes, fundada em 1925 pelo casal de imigrantes alemães Rudolph e Hildegard Hufenüssler.

A empresa nasceu com o objetivo de produzir óleos essenciais de plantas tropicais para alimentos e bebidas e, apenas dez anos depois, iniciou suas exportações. Hoje, leva seus ingredientes para mais de 70 países e possui operações em oito países, incluindo fábricas no Brasil, Chile, Colômbia e México, além de escritórios comerciais nos Estados Unidos, China e Polônia.

Foto: DR/Divulgação

Mesmo com a expansão internacional, a sede permanece em Jaraguá do Sul, onde está concentrada a principal estrutura de inovação, pesquisa e desenvolvimento da companhia.

Na avaliação da presidente executiva (CEO) da DR, Rosemeri Francener, fatores estratégicos encontrados na cidade foram decisivos para a consolidação internacional da empresa, como a proximidade da matéria-prima agrícola, a ligação ferroviária histórica com o porto e outros mercados da região Sul, além da forte cultura empreendedora local.

Segundo Rosemeri, Jaraguá do Sul oferece vantagens competitivas importantes, como mão de obra qualificada, infraestrutura logística eficiente, proximidade com rodovias e portos e um ambiente favorável ao desenvolvimento tecnológico.

CEO da DR – Aromas e Ingredientes, Rosemeri Francener | Foto: Duas Roda/Divulgação

O investimento em inovação é tratado pela companhia como uma das principais estratégias de expansão global. Entre os exemplos estão ingredientes exclusivos desenvolvidos em Jaraguá do Sul, como o Anthopower® e o Vitamin-Ace®40, soluções reconhecidas internacionalmente e premiadas em mercados como o asiático.

Para a Acijs (Associação Empresarial de Jaraguá do Sul), a cultura associativista é um dos fatores centrais para explicar a força econômica do município.

O presidente da entidade, Francisco Tavares Junior, lembra que os primeiros empreendedores da região enfrentavam dificuldades de infraestrutura e isolamento geográfico. “Isso criou uma cultura baseada em ajuda mútua, cooperação e atuação conjunta entre empresários e comunidade”, aponta.

Na avaliação da entidade, inovação, inquietude para fazer mais e melhor e crescimento sustentável com responsabilidade financeira ajudaram a construir empresas resilientes e preparadas para competir internacionalmente.

A cultura empresarial local também carrega uma característica frequentemente citada pelas lideranças do setor produtivo: o crescimento sustentável e de longo prazo. Na definição do presidente da Acijs, Jaraguá do Sul desenvolveu empresas com perfil de austeridade, reinvestimento e expansão consistente, “crescendo com os pés no chão”.

A entidade também aponta que o ambiente de negócios da cidade evoluiu junto com a atuação empresarial, buscando equilibrar crescimento econômico e qualidade de vida da população.

Hoje, Jaraguá do Sul aposta na expansão de áreas estratégicas voltadas à industrialização sustentável e atração de novos investimentos, especialmente em segmentos de alta tecnologia e baixo impacto ambiental.

Entre os projetos citados pela entidade estão os chamados SEIS “Setores Especiais de Industrialização Sustentável”, além de melhorias logísticas regionais, como o novo contorno da BR-280 e a duplicação da SC-108.

Um modelo econômico raro no Brasil

Jaraguá do Sul reúne indicadores que normalmente estão espalhados entre grandes centros urbanos brasileiros: renda elevada, indústria forte, exportação relevante, educação técnica consolidada e baixos índices históricos de desemprego.

A cidade também mantém uma forte cultura empresarial familiar, com empresas que nasceram localmente e conquistaram espaço nacional e internacional sem abandonar suas origens.

Apesar dos indicadores econômicos positivos, o principal desafio apontado pelas empresas e entidades empresariais continua sendo a escassez de mão de obra qualificada, realidade enfrentada atualmente por grande parte do setor industrial catarinense.

Mais do que apenas um polo industrial, Jaraguá do Sul se transformou em um exemplo de como planejamento de longo prazo, qualificação profissional, inovação e cooperação entre empresas e comunidade podem transformar uma cidade do interior em uma potência econômica global.

Foto: Divulgação/ Prefeitura de Jaraguá do Sul

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Publicação da Rede OCP de Comunicação