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Uma plataforma pode ser responsabilizada pelo suicídio ao vivo de uma adolescente?

Foto: Imagem ilustrativa/Magnific

Por: Raphael Rocha Lopes

19/08/2026 - 06:08

Aviso importante: esse texto possui referências a temas sensíveis como suicídio e abuso de crianças, que podem acionar gatilhos.

A história é muito triste e vai dar uma dor no peito de qualquer pessoa sã e razoável, principalmente nos pais e mães.

Era uma menina de 13 anos, de Naviraí/MS. Aquela idade entre a infância e a pré-adolescência. Aquela idade em que muitos turbilhões passam no corpo e na mente de qualquer um, e, talvez – não sou médico nem psicólogo -, nas meninas seja mais intenso.

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Era uma menina. Uma menina que se suicidou ao vivo, incitada por um grupo de extremistas em uma plataforma de rede social. Era uma menina que, como tantas de sua idade, poderia ter um futuro brilhante, mas que, como tantas outras, foi cooptada de alguma forma por essas redes de crápulas que praticam violência psicológica, estimulam desafios extremos e incitam à automutilação e ao suicídio. Nesse caso, foi isso, e o fim de uma história que mal começou. Era 22 de julho.

Motivada por esse episódio, em trabalho conjunto das polícias do MS, SP, RJ, MG, PA e CE e do Ministério da Justiça, no começo desse mês foi deflagrada uma operação para busca e apreensão de menores, celulares e computadores, e a prisão de um adulto. Foram encontrados materiais de apologia ao nazismo e conteúdos de abuso sexual infantil.

As investigações apontam que a menina de MS não é a única vítima. Há mais, em outros estados. É uma organização criminosa estruturada e que atinge o Brasil inteiro virtualmente.

As vítimas são normalmente escolhidas nos perfis públicos de redes sociais mais conhecidas e são convidadas para salas reservadas no Discord. Aos poucos, essas vítimas, crianças e adolescentes, (não apenas meninas, mas principalmente), vão sendo submetidas a um processo de isolamento, coação e violência psicológica. Depois vêm a violência física, inclusive contra animais, automutilação e, nos casos mais graves, o induzimento ao suicídio. Há uma espécie de escravização virtual.

As notícias e investigações iniciais apontam que o suicídio ocorreu ao vivo na plataforma Discord, em uma live que durou cerca de 45 minutos (dependendo da fonte). O vice-presidente de segurança e confiança da plataforma, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, reconheceu falhas nesse episódio: “Não fomos rápidos o suficiente”. A ANPD determinou cautelarmente a suspensão das lives na plataforma até a comprovação de medidas adequadas para proteção de crianças e adolescentes. Em sua defesa, o Discord agora rebate que a transmissão no momento da morte tenha ocorrido na sua plataforma, alegando que derrubou o servidor responsável antes.

É fato que o Discord não é a única rede social onde coisas escabrosas acontecem. Mas é igualmente fato que o Discord tem um público infanto-juvenil muito mais ativo que outras plataformas, que ela vem falhando na sua moderação e que são recorrentes notícias envolvendo esse tipo de situação nessa plataforma. Em outras plataformas mais conhecidas, postagens com atos de violência ou de aparente violência normalmente são derrubados mais rapidamente. Aplicativos de mensagens também são usados, com manuais ensinando esses tipos de crimes circulando, principalmente no Telegram.

Em outras palavras: pais, não há espaço seguro na internet para crianças e adolescentes!

Há, ainda, o que investigar e, mais importante, há muito a se debater. Muito além disso, tem a participação dos pais e das escolas. A educação digital é imprescindível. Entretanto, não é apenas isso. Educar ao respeito, à convivência com as diferenças, à sensibilização das crianças como seres humanos que são, à desconstrução da polarização e da virulência, à harmonia, à filosofia e à reflexão deve caminhar junto com a educação digital para consigamos construir uma leva de homens e mulheres mais responsáveis e conscienciosos. E para evitar tragédias como a dessa menina de Naviraí.

Por fim, minha opinião aqui pouco importa para a resposta da pergunta do título. O importante é que cada um de vocês reflita, responda e cobre de quem deve ser cobrado.

Caso você seja vítima de situações como as narradas nesse texto ou conheça alguém que seja, procure ajuda e as autoridades.

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Raphael Rocha Lopes

Advogado, autor, professor e palestrante focado na transformação digital da sociedade. Especializado em Direito Civil e atuante no Direito Digital e Empresarial, Raphael Rocha Lopes versa sobre as consequências da transformação digital no comportamento da sociedade e no direito digital. É professor da Faculdade de Direito do Centro Universitário Católica Santa Catarina e membro da Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs.