“♫ Esse nosso papo anda tão furado/ É baixaria, dor de corno e bunda pra todo lado/ Eu quero me esbaldar, quero lavar a alma/ Quem sabe, sabe; quem não sabe bate palma/ E pra celebrar a nossa falta de assunto/ Vamo todo mundo canta junto” (Nada a declarar; Ultraje a Rigor)
Sim, já houve um tempo em que não saber alguma coisa produzia um sentimento bastante humano: vergonha. Não uma vergonha paralisante ou humilhante, mas uma percepção de limite. Diante de um assunto desconhecido, era razoável permanecer em silêncio, ouvir quem entendia do assunto, pesquisar antes de opinar ou simplesmente dizer: “Não sei”.
Agora entramos na Era da pós-vergonha. Não saber deixou de ser motivo para se calar, escutar e refletir. Em alguns ambientes, acontece justamente o contrário, especialmente nas redes sociais. A ignorância passou a ser exibida com a mesma segurança com que antes se exibiam conhecimento, experiência e competência.
A pessoa lê uma manchete, assiste a um vídeo de quinze segundos ou recebe uma mensagem pelo WhatsApp e, meio minuto depois, sente-se habilitada a explicar economia, medicina, ciência, direito, geopolítica, inteligência artificial, assuntos sobre os quais pesquisadores dedicaram décadas de estudo e muitas vezes sequer chegaram a um consenso.
E existe uma característica ainda mais curiosa: quanto menos conhecimento sobre determinado assunto, maior pode ser a convicção de que se está certo. É o tal Efeito Dunning-Kruger que já falei aqui outro dia.
O espetáculo
O que se vê agora, porém, não se trata apenas de ignorância. A ignorância sempre existiu. O que mudou foi sua capacidade de transformar ignorância em espetáculo. É bizarro, mas é verdade, infelizmente. Não canso de trazer a premonitória frase do filósofo Umberto Eco: as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis.
E ainda deram a qualquer pessoa um palco, uma audiência e um mecanismo de recompensa. Uma opinião agressiva pode produzir mais curtidas do que uma explicação cuidadosa, assim como uma afirmação absurda ou uma mentira sensacionalista. O algoritmo não pergunta se aquilo é verdadeiro. Pergunta, metaforicamente, se aquilo prende a atenção.
Se antes o conhecimento conferia autoridade para falar, agora basta parecer ter autoridade. E quem mais tem sofrido com essa dissonância é a D. Ciência. Às vezes fica-se com a impressão de que nada mais vale a pesquisa de anos, o consenso construído por centenas de estudiosos ou os dados estatísticos. Vale o achismo de pseudo-especialistas desavergonhados (em todos os sentidos da palavra).
E ainda que cientistas também errem, aqui está a beleza: eles têm consciência de que a ciência é justamente o método criado para testar hipóteses, corrigir erros e substituir conclusões quando surgem evidências melhores. Isso, nem precisaria dizer, é abissalmente diferente de questionar a ciência por causa de uma mera convicção pessoal.
O barateamento da sem-vergonhice
A inteligência artificial acrescentou uma camada nova a esse fenômeno. Agora, além de produzir opiniões com velocidade, qualquer pessoa pode utilizar ferramentas de IA para construir textos e vídeos sofisticados que dão aparência de conhecimento a argumentos frágeis. O verniz intelectual ficou barato.
A Era da pós-vergonha talvez seja, então, menos uma era de pessoas que deixaram de ter vergonha e mais uma época em que a vergonha de não saber foi substituída pela necessidade de parecer que se sabe.
E há consequências caras. Uma democracia depende da capacidade de seus cidadãos distinguirem fato de opinião, evidência de piada, conhecimento de palpite. Tudo valendo o mesmo, a realidade deixa de ser um território comum.
Acredito, porém, que ainda dê tempo. Devemos partir em busca da humildade intelectual, do recolhimento à nossa insignificância, e da saber que dizer “não sei opinar sobre isso” é sinal de lucidez, conhecimento e força.
E espero que ter vergonha (pelo menos de falar idiotices) volte a virar moda!