♫ A novidade era o máximo/ Um paradoxo estendido na areia/ Alguns a desejar seus beijos de deusa/ Outros a desejar seu rabo pra ceia/ Ó mundo tão desigual/ Tudo é tão desigual” (A novidade; Os Paralamas do Sucesso)
Faz tempo que não falo da renda básica universal. A explosão da popularidade das inteligências artificiais me fez voltar a refletir sobre o tema. Um show do Paralamas me trouxe a música premonitória. Enquanto uns querem o busto da deusa, outros querem só ter um prato de comida.
Diferenças entre ricos e pobres sempre houve. Agora, porém, parecem mais colossais. Se alguns séculos atrás o muito rico fazia suas necessidades escatológicas em um balde e jogava-as pela janela da torre de seu castelo, enquanto o muito pobre fazia também num balde e jogava atrás de casa; agora enquanto um muito rico compra vasos de 100 mil dólares, aviões e coisas que nem imaginamos, os muito pobres continuam não tendo sistemas sanitários.
Com o advento da inteligência artificial e a velocidade cada vez maior dos seus impactos, esse abismo entre ricos e pobres vai crescer. E quem faz essa previsão não são apenas economistas ou sociólogos. São alguns dos próprios criadores da inteligência artificial.
Concentração
Quem acompanha o debate sobre IA costuma imaginar que os maiores receios dizem respeito à substituição de empregos. A preocupação existe, mas é a ponta do iceberg. O verdadeiro temor é a concentração de riqueza que vem por aí.
Não é por acaso que nomes como Altman, Musk, Zuckerberg e outros líderes do setor passaram a defender, em maior ou menor grau, a discussão sobre uma renda básica universal. Não se trata de filantropia nem de uma conversão ideológica. Eles conhecem melhor do que ninguém o potencial das tecnologias que estão construindo. E as consequências.
Sempre se falou que toda revolução tecnológica destrói algumas profissões e cria outras. Foi assim na mecanização da agricultura, na Revolução Industrial e com a informática. O trabalhador aprendia uma nova atividade e a economia encontrava um novo equilíbrio.
A IA parece estar alterando essa lógica porque ela não substitui apenas a força física. Começa a disputar espaço com o trabalho intelectual. Advogados, médicos, jornalistas, engenheiros e professores já convivem com ferramentas capazes de executar parte de suas atividades em poucos segundos. O efeito econômico é previsível. Empresas produzirão mais com equipes menores.
A RBU
Assim, controlar a tecnologia alcançará uma parcela cada vez maior da riqueza gerada. O desafio deixa de ser produzir riqueza e passa a ser distribuí-la.
Nessa esteira, a renda básica universal, embora discutida há séculos, ressurgiu nesse contexto de avanço rápido da tecnologia. A ideia é simples: garantir a todas as pessoas um valor mínimo para viver. Antes tratavam como utopia ou coisa de comunista. Agora, passou a ser discutida por empresários que ajudaram a criar a revolução tecnológica em curso.
Obviamente não é a solução definitiva. O trabalho distribui muito mais do que dinheiro. Distribui identidade, pertencimento, propósito e relações sociais. Receber um valor mensal pode evitar a pobreza extrema, mas não substituirá o significado que o trabalho exerce na construção da vida de milhões de pessoas.
A humanidade está diante de um cenário que parece o dos livros que falei semana passada: um aumento exponencial de produção de eficiência e riqueza sem necessidade de trabalho humano na mesma proporção. Riqueza concentrada nas mãos de poucos.
Não é mais só questão de matemática. Não haverá mais emprego para todos. Como os líderes políticos e empresariais lidarão com essa necessidade de garantir dignidade, oportunidades e equilíbrio em um mundo de desigualdades avassaladoras é a pergunta que todos devemos fazer.
A reflexão é urgente. Ou, então, podemos aguardar para ver se a previsão de Harari de que estamos fadados a ser separados entre “super-humanos” e uma massa economicamente irrelevante se concretiza.