Homologado candidato ao governo do estado pelo PSB socialista e respaldado por praticamente todos os partidos de esquerda, Gelson Merísio retorna à vida eleitoral depois de um intervalo de oito anos. E retorna, curiosamente, para ser mais uma vez candidato a governador, só que de outro lado do tabuleiro ideológico. Ele se deslocou da trincheira de centro-direita do PSD, pelo qual já concorreu, até porque virou esquerdista. O mesmo Merísio que apoiou Jair Bolsonaro em 2018, agora forma dobradinha com Lula da Silva. É a política brasileira em toda a sua glória.
Palanque mútuo
O discurso de Merísio, tanto na convenção do PSB quanto na reunião conjunta com os demais partidos de esquerda, foi claro: sustentar a necessidade de Lula da Silva apresentar um resultado eleitoral melhor em Santa Catarina. Ele dá palanque para Lula, mas precisa ser alavancado pelo presidente. E os números mostram o problema: Lula bate em média 25% nas pesquisas catarinenses, enquanto Merísio no teto dos 10%. Para ter qualquer perspectiva de segundo turno, ele terá necessariamente que pegar carona com Lula. Sem essa tração, a conta não fecha.
Entre ataques e elogios
O tom do discurso na convenção foi estrategicamente concebido. Além de enaltecer o atual presidente da República, de quem se apresentou como amigo pessoal, Merísio destacou a importância de Lula para Santa Catarina, creditando a ele as grandes obras realizadas pela União no estado nos últimos 20 anos. E na sequência, criticou duramente o governador Jorginho Mello. O objetivo é claro: estabelecer desde já a polarização. PT e PSB de um lado, PL do outro. Lula e Merísio contra Jorginho e Flávio Bolsonaro.
João ignorado
E João Rodrigues? Foi olimpicamente ignorado. Merísio adota uma estratégia de isolamento do candidato do PSD, deixando-o fora do debate, fora da polarização, fora do discurso político. E essa estratégia, curiosamente, interessa também ao próprio Jorginho Mello, que na convenção do dia 1º certamente vai dirigir críticas a Lula e a Merísio, reforçando a mesma lógica. Ambos querem deixar João Rodrigues a ver navios.
Dois contra um
Com isso, Jorginho enfraquece aquele que poderia disputar votos com ele no campo da direita e do centro. E Merísio, por sua vez, vai tentar capturar votos de João não pelo aspecto ideológico, mas pelo componente regional. Ambos são da região de Chapecó: João da própria cidade e Merísio do município vizinho(Xanxerê). Aliás, já foram correligionários. O terreno é comum, o campo político, não.
Não tem empate
Merísio quer crescer na expectativa de repetir o segundo turno de 2022. Jorginho Mello quer liquidar a fatura no primeiro. As pesquisas hoje apontam para o favoritismo do governador. Mas em 50 dias de campanha, com Lula empurrando Merísio e a polarização nacional batendo em Santa Catarina, o jogo pode ficar mais interessante do que parece.