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Necromancia digital

Foto: IA

Por: Raphael Rocha Lopes

22/07/2026 - 06:07

♫ Who wants to live forever?/ Who wants to live forever?/ Forever is our today” (Who wants do live Forever?; Queen)

“Ninguém morre enquanto seu nome ainda é pronunciado”. A frase que ouvi no longa da Disney “Viva – A Vida é uma Festa”, que assisti com meu filho, apesar de não saber sua verdadeira origem (da frase, eu digo), parece estar ganhando um significado inesperado nessa era da inteligência artificial. Agora é: ninguém morre enquanto seus dados continuarem circulando pela internet.

Necromancia, como vocês sabem ou estão curiosos para saber, é a prática de conversar com os mortos, ou supostamente isso. Vem do grego nekros (cadáver) e manteia (adivinhação).

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Nessa nova versão, tem se chamado de necromancia digital o uso de inteligência artificial para recriar vozes, imagens, vídeos e até padrões de conversa de pessoas falecidas. Em poucos minutos, algoritmos conseguem produzir um vídeo ou áudio inédito de alguém que já morreu.

Quem aí viu o vídeo de vários falecidos brasileiros famosos acompanhando jogos da Copa? Foi emocionante para muita gente, mas merece reflexões.

Tecnologia do luto

Já há empresas oferecendo serviços que permitem conversar com versões digitais de parentes falecidos, utilizando mensagens, áudios e vídeos deixados em vida. Esse mercado recebeu o nome de grief tech (tecnologia do luto). A proposta é oferecer conforto emocional, permitindo que familiares mantenham uma espécie de diálogo com quem partiu. Para algumas pessoas, trata-se de uma forma de preservar memórias. Para outras, de impedir que o processo natural do luto aconteça. Psicólogos ainda estudam seus efeitos, mas uma pergunta já se impõe: como separara um suporte para lembranças de uma dificultação da despedida?

Em 2020, publiquei um vídeo de uma mãe reencontrando sua filha de seis anos, falecida. Está nesse link. Dá um misto de sensações fortes. Assistam e tirem suas conclusões. E isso foi há mais de seis anos. A tecnologia evoluiu uma enormidade de lá para cá.

Da morte ao lucro

Dei o exemplo dos famosos torcedores, mas há muito mais. Nos últimos anos, artistas falecidos voltaram aos palcos por meio de hologramas, campanhas publicitárias utilizaram versões digitais de celebridades mortas e a inteligência artificial tornou possível criar novos comerciais, músicas e entrevistas sem que a pessoa jamais tenha participado delas.

O direito ainda caminha para responder perguntas sobre autorizações e quem lucra com isso. Em diversos países, a proteção da imagem depende da atuação dos herdeiros ou de regras específicas sobre direitos da personalidade e direitos autorais. No Brasil, a utilização comercial da imagem de uma pessoa falecida, sem autorização dos familiares ou sucessores quando necessária, pode gerar discussões jurídicas e pedidos de reparação.

Há outro ponto, porém. Talvez mais importante. Se a inteligência artificial consegue colocar palavras na boca de quem morreu, quem garante que aquelas palavras representariam, de fato, sua vontade? Diversos artistas já estão proibindo expressamente o uso de suas imagens após a morte ou mesmo de seus trabalhos para criar novas músicas ou textos.

O falecimento já não significa, necessariamente, o fim da presença pública. Por conta disso, o desafio era preservar a memória das pessoas agora também abrange proteger sua dignidade digital depois da morte.

Afinal, quem quer viver para sempre?

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Raphael Rocha Lopes

Advogado, autor, professor e palestrante focado na transformação digital da sociedade. Especializado em Direito Civil e atuante no Direito Digital e Empresarial, Raphael Rocha Lopes versa sobre as consequências da transformação digital no comportamento da sociedade e no direito digital. É professor da Faculdade de Direito do Centro Universitário Católica Santa Catarina e membro da Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs.