A esquerda quebra o pau, mas entre quatro paredes. Acerta as divergências em ambiente fechado, resolve as rusgas nos bastidores e vai para a campanha unida, com o discurso alinhado e o sorriso na face. A direita, não. A direita tradicional gosta de discutir a relação em público, fazer o desgaste na vitrine, lavar a roupa suja debaixo dos holofotes, em plena pré-campanha, para o Brasil inteiro ver.
E não precisamos ir longe para encontrar o exemplo mais eloquente. Basta olhar para dentro do próprio PL. O primogênito de Jair Bolsonaro e a mulher do ex-presidente. A forma como a madrasta trata o enteado e o enteado trata a madrasta. Não em ambiente reservado, não numa conversa discreta entre aliados. Não. É à luz do dia, para todo mundo assistir, comentar e explorar. E a esquerda, de camarote, agradece e anota cada capítulo.
Flávio cresceu rápido demais
Tudo isso fragiliza a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, que cresceu muito rapidamente depois de ungido pelo pai como seu sucessor e herdeiro político. A escolha ocorreu no apagar das luzes do ano passado, num momento em que havia uma convergência natural de setores relevantes da sociedade, do mercado financeiro, do empresariado, da classe média e dos partidos, em torno do nome disponível e mais competitivo: o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
Tarcísio era a escolha óbvia
Tarcísio administra o segundo maior orçamento da República, perdendo apenas para o governo federal. É gestor testado e comprovado. Tem comunicação fácil, envergadura moral e embocadura intelectual. Representava um projeto de poder, de Estado, de futuro. Não um projeto familiar. E tanto Jair Bolsonaro quanto o próprio Flávio tinham plena consciência, àquela época, de que os contatos do senador carioca com o banqueiro Daniel Vorcaro viriam a público. Mais um motivo para apostar em alguém imune a qualquer desgaste.
A escolha errada
Mas a escolha foi outra. E a realidade está posta. Tarcísio não renunciou, é candidato à reeleição em São Paulo e tem tudo para ganhar no primeiro turno. Flávio, por sua vez, acumula revelações: uma mensagem de voz pedindo apoio financeiro ao Vorcaro para um filme sobre a trajetória do pai, e uma visita ao mesmo Vorcaro de tornozeleira eletrônica em prisão domiciliar em São Paulo. O retrato não é bonito.
Banco Master é terra arrasada
Mesmo assim, a questão do Banco Master não vai definir a eleição. É terra arrasada para todo mundo, PT, PL e companhia. Ninguém sai limpo desse capítulo. O que vai ser determinante no resultado eleitoral é a questão econômico-financeira. O poder aquisitivo. O poder de compra do brasileiro. Fogão apagado, panela vazia. Simples assim.
Bombardeio de aliados
Com todas essas fragilidades expostas, o que se observa agora é a esquerda quieta, só observando. Antes da ex-primeira dama, Romeu Zema foi quem abriu a porteira. E agora também Ronaldo Caiado. São aliados, ou deveriam ser. E o bombardeio não vem de fora, vem de dentro. Até que ponto Flávio vai suportar esse fogo amigo é a grande incógnita.
Polarização ainda provável
Há espaço para sair dessa polarização? Aparentemente não. As convenções começam no dia 20 e vão até 5 de agosto. A campanha propriamente dita arranca no dia 16 de agosto, com 50 dias pela frente. Muita coisa ainda pode acontecer. Mas não resta dúvida que, apesar de Lula estar desmoralizado pelas práticas de corrupção e o governo igualmente fragilizado pela sanha arrecadatória que sufoca o brasileiro, ele ainda alimenta perspectiva eleitoral real.
Incompetência conservadora
E o motivo vai além da desunião da direita. É mais profundo do que isso. É a incompetência das lideranças conservadoras. A começar pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, que teve a oportunidade de indicar o nome mais forte, mais competitivo e mais preparado para disputar a Presidência. E perdeu a oportunidade de ouro de apontar uma liderança revelada por ele próprio no Ministério da Infraestrutura. Sem falar que foi ele quem inventou a candidatura de Tarcísio de Freitas em São Paulo. Hoje, Flávio depende da boa vontade de Tarcísio para eventualmente emplacar como próximo inquilino do Palácio do Planalto.