A Schützenfest chega à sua 36ª edição em 2026 como resultado direto de uma construção histórica que atravessa mais de um século em Jaraguá do Sul e no Vale do Itapocu. A festa não surgiu de forma isolada: ela é fruto das sociedades de tiro criadas pelas comunidades de imigrantes alemães e do papel que essas entidades tiveram na vida social da região.
A prática do tiro esportivo começa em 1906, com a Sociedade de Atiradores Jaraguá, primeira do município. A partir dela, outras sociedades foram sendo formadas ao longo das décadas, como a Dr. Lauro Müller (1916), Rio Cerro II (1916), Einigkeit (1928), Concórdia (1931) e Boa Esperança (1952). Mais do que espaços esportivos, elas funcionavam como centros de convivência, onde a vida comunitária se organizava em torno de encontros, festas e tradições.
É nesse contexto que ganham força as tradicionais Festas de Rei e Rainha, com desfiles, bailes e a coroação das lideranças do tiro, reforçando o vínculo entre as sociedades e a identidade cultural das comunidades.
Com o tempo,e especialmente após o período de restrições culturais da década de 1930, seguido da retomada mais forte entre os anos 1970 e 1980, começa a amadurecer a ideia de reunir todas essas sociedades em um único evento.
A criação da Schützenfest

Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul
Foi no bairro Rio da Luz, em 1988, que a proposta ganhou força. Representantes de várias sociedades se reuniram para discutir a criação de uma festa que unisse todos os grupos da região. Assim nasceu a Pré-Schützenfest, uma confraternização que serviria de modelo para algo maior.
Em 18 de março de 1989, a ideia se concretizou com a criação da Associação dos Clubes e Sociedades de Tiro do Vale do Itapocu (ACSTVI), formada por 25 sociedades. A missão era clara: resgatar, difundir e manter vivas as tradições germânicas.
Poucos meses depois, entre 13 e 22 de outubro de 1989, Jaraguá do Sul realizava a 1ª Schützenfest, a Festa dos Atiradores. O evento contou com competições nas modalidades carabina 22, chumbinho e flecha, apresentações folclóricas, bandas típicas, gastronomia alemã e o tradicional baile para coroação do Rei e da Rainha do Tiro.
Desde então, a Schützenfest passou a crescer em estrutura e prestígio, tornando-se um patrimônio imaterial da cidade. Hoje, 17 sociedades de tiro participam da programação, que se estende por 11 dias de festa, misturando competições esportivas e manifestações culturais.

Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul
Símbolos que contam histórias

Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul
O tiro esportivo é o coração da Schützenfest. um símbolo de disciplina, precisão e união. Nos estandes, os visitantes podem experimentar as modalidades tradicionais, como o tiro de chumbinho e de seta, perpetuando uma prática que ultrapassa gerações.
Os trajes típicos também são parte fundamental da festa. As roupas de inspiração bávara, com lederhosen e chapéus adornados, representam o orgulho da herança cultural. Já os desfiles das sociedades, com suas bandeiras e fanfarras, são um espetáculo à parte: um retrato vivo da história dos imigrantes e da alegria de celebrar suas origens.
Outro símbolo importante é o Schützenbaum, o mastro dos atiradores, decorado com os brasões das sociedades, um sinal de fraternidade e união entre os grupos. E, claro, há o mascote Wilfried, criado em 1998 por Fernando César Bastos. Jovem, alegre e trajado como um autêntico atirador, ele substituiu o antigo personagem Hans Bier, reforçando a imagem da festa como um evento familiar e cultural.
Curiosidades que marcaram época

Foto: Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul
- A primeira Schützenfest aconteceu entre 13 e 22 de outubro de 1989.
- Até 1992, as rainhas e princesas eram eleitas por venda de votos. A primeira foi Sonéia Hornburg, da Sociedade Aliança.
- De 1993 a 1995, as candidatas foram escolhidas por competição de tiro, e, a partir de 1996, por concurso de beleza.
- A banda alemã Die Original Mottener, contratada entre 1991 e 1997, embalou a festa e deixou um legado: o vocalista Kalle Mager compôs a canção “Wir gehn zum Schützenfest”, hoje considerada o hino oficial da festa.
- Em 1990, as mulheres passaram a disputar oficialmente as provas de tiro.
- Em 2019, pela primeira vez, o Rei e a Rainha dos Atiradores eram um casal de verdade: Ináurea Reinke Schmidt e Claudio Ivair Schmidt.
- A mudança dos estandes de tiro para a entrada dos pavilhões deu mais visibilidade à prática e aumentou a participação do público.
- O Wilfried se tornou mascote oficial em 1998, reforçando o espírito alegre e cultural do evento.