“♫ Meu caminho pelo mundo eu mesmo traço/ A Bahia já me deu régua e compasso/ Quem sabe de mim sou eu/ Aquele abraço!” (Aquele abraço; Gilberto Gil)
Outro dia, li na internet o texto de uma mãe que comentava sobre uma postagem que ela tinha visto de outra mãe, de branco, com um filho pequeno aninhado em suas pernas, de pijama branco, em um sofá branco numa bela sala branca, de decorações claras, transmitindo uma sensação de paz, em contrapartida ao seu cotidiano de cabelo desgrenhado, seus gritos com seus filhos gritando, a casa bagunçada, uma mancha qualquer no sofá da sala. Só faltou falar da Balada do Louco, d’Os Mutantes como música de fundo.
Como ela disse no texto, também acredito que haja mães e filhos e famílias assim resplandecentes. Mas certas situações são instagramáveis (essa é uma palavra que absorvi sem preconceitos no meu vocabulário porque traduz tudo o que tem que traduzir) demais para serem verdade. Vida de pais, especialmente das mães, não é como na imagem descrita. Vida de ninguém é, em regra, assim. Se a Princesa Diana tinha problemas, qualquer plebeu como nós também tem.
Às vezes é só uma questão de saber como gerir esses problemas, e tudo interfere: estado de espírito, situação financeira, relacionamento pessoal, personalidade, ambiente de trabalho, número filhos, responsabilidades herdadas, se o Brasil ganhou o jogo da Copa, tudo pode interferir, ou nada, se você for, talvez, um Mestre Jedi.
Novos padrões
As redes sociais têm transformado a felicidade em obrigação pública. O extraordinário virou cotidiano. Obrigatoriamente cotidiano. Mas é preciso se atentar que a culpa não é só das big techs que querem que você fique na internet muito mais tempo do que deveria.
Também é da (pseudo)necessidade de pertencimento que foi muito facilitada, embora de maneira enviesada, pela internet. Mais do que isso: as pessoas não querem só pertencer (a um grupo, principalmente os de – aparente – sucesso); querem pertencer aparecendo bem na foto. De preferência, muito bem, ou, ao menos, melhor do que aquela outra pessoa que nem se gosta tanto assim.
Da mesma forma, não pode ser esquecido que fotos da viagem de férias, da apresentação escolar do filho, dos aniversários e de situações bacanas sempre fizeram parte da rotina da vida das pessoas desde que as câmeras fotográficas se popularizaram, com seus filmes de rolo.
Nessa outra época, porém, alguns cuidados eram necessários, pois os filmes tinham no máximo 36 poses e desperdiçar fotos era um pecado quase capital. E, provavelmente por isso, se você não fosse um fotógrafo profissional, as fotos eram apenas um pequeno pedaço da viagem, da festa, da apresentação. O restante era atenção entre pessoas.
Novos prêmios
Hoje os algoritmos esnobam a vida comum. Premiam aquilo que prende a atenção. O resultado é que milhões de pessoas passam a consumir diariamente uma coleção de recortes cuidadosamente selecionados da vida alheia e, sem perceber, começam a compará-los com a única vida que conhecem por inteiro: a própria. E é uma comparação inevitavelmente injusta.