Há uma frase clássica, repetida há décadas nos bastidores do poder, que segue atualíssima: política não é para amadores. Talvez seja hora de atualizar o conceito. Política também não é espaço para fanfarrões, aventuras personalistas ou factóides montados exclusivamente para chamar atenção.
O episódio protagonizado pelo pré-candidato ao governo de Santa Catarina, Marcelo Brigadeiro, encaixa-se exatamente nessa categoria.
Lutador, empresário e figura que já transitou pelo PSL bolsonarista de 2018, além de ter circulado pelo governo Carlos Moisés, Marcelo Brigadeiro surgiu recentemente como pré-candidato ao governo do Estado pelo Missão. Uma pretensão legítima, evidentemente. Todo cidadão tem o direito de disputar uma eleição.
Mas, desde o início, sua movimentação jamais pareceu representar algo politicamente consistente ou minimamente competitivo no cenário catarinense.
Desistência fake
No último domingo, Marcelo Brigadeiro publicou nas redes sociais que anunciaria, no dia seguinte, as razões para retirar sua pré-candidatura ao governo.
O anúncio provocou repercussão imediata. Jornalistas, comunicadores e analistas políticos passaram a avaliar possíveis impactos da suposta desistência. Afinal, mesmo candidaturas sem densidade eleitoral podem produzir efeitos periféricos no tabuleiro político.
Piada
Só que nada disso existia.
Depois de uma live realizada no fim da tarde, Brigadeiro revelou que tudo não passava de uma “brincadeira”. Segundo ele, a encenação serviria para impulsionar uma vaquinha virtual destinada à arrecadação de recursos para sua campanha, mecanismo previsto na legislação eleitoral.
Ou seja: criou-se artificialmente um factóide para tentar ganhar visibilidade e arrecadar dinheiro.
Presepada política
Se antes a pré-candidatura já não inspirava maior seriedade, agora passa a ser encarada como uma completa gozação.
E depois ainda existe quem não compreenda por que a política brasileira mergulha, dia após dia, em descrédito perante a opinião pública.
Na lona
O problema não é apenas Marcelo Brigadeiro. O problema é a banalização absoluta da atividade política.
Transformar uma disputa eleitoral em espetáculo de internet, utilizando o expediente de uma pegadinha para mobilizar audiência, não fortalece candidatura alguma. Apenas desmoraliza ainda mais o ambiente político.
Indução ao erro
Pior: vários profissionais da imprensa foram levados legitimamente a repercutir a falsa desistência, acreditando tratar-se de um movimento real.
No fim das contas, o episódio acabou servindo apenas para reforçar a sensação de improviso, superficialidade e ausência completa de densidade política.
Reforma para valer
O Brasil segue pagando o preço de um sistema político-partidário esgotado.
Há mais de quatro décadas se fala em uma reforma política séria. Mas o país insiste apenas em remendos, atalhos e casuísmos eleitorais que deterioram ainda mais o processo democrático.
Sintoma
A reeleição é um dos exemplos mais simbólicos dessa deformação institucional.
Em vez de fortalecer a representação popular, o sistema passou a estimular estruturas artificiais de poder, distanciando a sociedade da política.
E, quando surgem figuras apostando em factóides, pegadinhas e encenações para sobreviver eleitoralmente, o resultado é ainda mais devastador para a credibilidade das instituições.
Candidato dele mesmo
Marcelo Brigadeiro continua pré-candidato ao governo.
Mas, depois do cavalo de pau que protagonizou, sua candidatura tende a permanecer restrita a ele próprio.
Se já demonstrava baixíssima densidade eleitoral antes da desistência fake, agora corre o risco de transformar-se apenas numa peça decorativa do processo eleitoral catarinense.
E uma peça decorativa de péssimo gosto.