“♫ Tabelou, driblou dois zagueiros/ Deu um toque, driblou o goleiro/ Só não entrou com bola e tudo porque teve humildade, um gol” (Fio Maravilha, Jorge Ben Jor)
O título de hoje é uma frase atribuída ao técnico italiano Arrigo Sacchi (talvez nos anos 1980, quem sabe nos 1990), e continua atual. O que mudou profundamente foi o próprio futebol.
Quando a primeira Copa do Mundo aconteceu, em 1930, no Uruguai, o esporte era quase irreconhecível para os padrões atuais. Não havia substituições, cartões amarelos ou vermelhos, árbitros assistentes de vídeo, GPS monitorando atletas, inteligência artificial analisando jogadas. Apenas um juiz, uma bola, vinte e dois jogadores e uma multidão apaixonada. Aliás, paixão talvez fosse o principal recurso tecnológico da época.
Ao longo das décadas, o futebol evoluiu. Surgiram cartões para disciplinar jogadores, substituições para preservar atletas e dar mais dinâmica às partidas. A medicina esportiva alongou carreiras, a preparação física transformou corpos. A transmissão televisiva levou o esporte para bilhões de pessoas.
Novas discussões
O problema é que a tecnologia nunca entra em campo sozinha. Sempre traz consigo novas discussões. O antigo torcedor reclamava do impedimento mal marcado. Hoje reclama das linhas do VAR. Antes discutia se a bola entrou ou não. Hoje discute se o ombro, o joelho ou a ponta do nariz estavam milimetricamente adiantados.
O VAR provavelmente corrige centenas de injustiças. Mas também tira algo que fazia parte da essência emocional do futebol: a espontaneidade. O gol deixou de ser gol quando a bola entra. Agora é gol depois de uma consulta a uma cabine tecnológica e alguns minutos de ansiedade coletiva. A comemoração virou um ato cauteloso. Os narradores sofrem. A torcida muitas vezes nem grita antes da confirmação.
Ciência ou arte?
Mas a transformação vai muito além da arbitragem. Os clubes utilizam algoritmos para contratar jogadores. Softwares analisam desempenho físico. Sistemas preveem riscos de lesões. Inteligências artificiais cruzam milhares de dados para sugerir estratégias. O técnico da Áustria, se não me engano, é conhecido por basear seus treinamentos em tudo isso. Se for realmente verdade, deu certo no primeiro jogo, mas não no segundo, contra a Argentina. Messi está acima dos algoritmos… Ele é arte, os números ciência.
De todo modo, futebol parece estar se tornando mais ciência e correndo o risco de deixar de ser uma arte, apesar de que nem tudo que importa cabe em uma planilha.
Como medir o improviso de um drible inesperado? (Quem lembra de Ronaldinho Gaúcho?). Como quantificar a genialidade de um passe que ninguém imaginou? Como transformar em estatística aquela sensação de que determinado jogador decide partidas importantes mesmo quando joga mal?
Os números ajudam, mas nem sempre explicam tudo. E o futuro promete discussões ainda mais curiosas.
Imagine uma Copa do Mundo em que a inteligência artificial sugira substituições em tempo real. Ou em que árbitros humanos sejam completamente substituídos por sistemas automatizados. Ou ainda que sensores dentro das chuteiras determinem cada decisão relevante da partida.
Parece ficção científica. Há menos de trinta anos também parecia ficção científica assistir a um árbitro desenhando linhas virtuais em uma tela para decidir um impedimento de poucos centímetros.
A pergunta é inevitável: até onde o futebol deve ir?
Talvez o maior patrimônio do esporte não esteja na perfeição das decisões, mas justamente em sua imperfeição humana. Nos erros, nas polêmicas, nas discussões de bar, nas teorias conspiratórias dos torcedores derrotados e nas histórias que atravessam gerações.
Ninguém conta para os netos como foi uma atualização de software. Entretanto, muitos lembram onde estavam quando viram um gol histórico, um drible absurdo, uma defesa impossível ou uma injustiça monumental que virou assunto por décadas. O futebol, afinal, sempre foi inexplicável.