“♫ Another world is calling you/ Another world is coming through/ You look like me, you talk like me/ I could believe you’re human!/ But, late at night, I catch your eye/ And I guess what you’re thinking” (Another world; Hoodoo Gurus)
Em outro texto, fazendo uma comparação mal comparada com o livro de Erich von Däniken, “Eram os deuses astronautas?”, questionei “Seriam os deuses algoritmos?”. Bem, não foi propriamente uma comparação, foi mais uma inspiração para o título, e nada mais do que isso. Não acredito que extraterrestres tenham ajudado a construir as pirâmides do Egito ou os moais da Ilha de Páscoa, e nem que somos frutos de um cruzamento entre ETs e primatas.
Acredito que exista alguma forma inteligente de vida (mais que a nossa, que está dando sinais plenos de burrice crônica) nesse Universo infinito e acredito na teoria de Charles Darwin. Mas para por aí.
Naquele meu texto, provoquei se os algoritmos computacionais não seriam, na verdade, os verdadeiros deuses, já que estão em praticamente todos os lugares, sabem tudo, são preditivos e tomam decisões por nós, muitas vezes mais eficientemente do que nós mesmos.
Androides sonham com ovelhas elétricas?
O romance distópico de Philip K. Dick (de 1968) que inspirou o filme Blade Runner (de 1982, direção de Ridley Scott e estrelado por Harrison Ford) é um bom presságio do livro de Marcus Bruzzo, “O Universo dos sonhos técnicos – Como as inteligências artificiais redefinirão nossa imaginação”. Bruzzo já começa com uma pancada quando traz do avesso a preocupação sobre a possibilidade de um dia as máquinas poderem sonhar.
Nem deu tempo direito de começar meu devaneio de revisitar mentalmente a obra “A fábrica de robôs”, de Karel Tchápek (de 1920, e que parece ter cunhado a palavra robô nos moldes que conhecemos hoje), e ele, Bruzzo, já larga um (possivelmente) “nós sonharemos os sonhos das máquinas”. E ele está certo! A não ser que você viva em um mundo tecnologicamente alienado, ele está certo.
Está chamando
Quando os Hoodoo Gurus (na música tema de hoje) cantam que “Outro mundo está te chamando/ Outro mundo está chegando” e “Você parece comigo, você fala como eu/ Eu poderia acreditar que você é humano!” provavelmente estavam se referindo a extraterrestres (com ou sem influência de von Däniken). O bizarro clip (como quase todos dos anos 80) dessa música não deixa muitas dúvidas.
Mas, convenhamos, essa letra cabe muito bem para os assistentes de inteligência artificial utilizados hoje em dia. A música ainda continua com “Para você, este planeta é uma prisão; o que eu chamaria de humano em mim; para você seria perversão”. Para muitos, a internet e as redes sociais viraram uma grande prisão virtual. Quem é o humano e quem é o pervertido, no final das contas?
Está chegando
Muita gente não consegue mais diferenciar o verdadeiro do falso em relação ao que recebe pela internet, especialmente pelas redes sociais e aplicativos de mensagem. A bolha de cada um e a sua necessidade de pertencimento fazem com que cada pessoa acredite no que ela quer acreditar ou foi tragicamente manipulada para querer acreditar.
Mas pode ficar pior. Os sonhos, que são, talvez, o último refúgio das coisas lúdicas (ou não) do que vivemos na realidade da vida, estarão, em futuro breve, seriamente comprometidos pela inteligência artificial. Como diz Bruzzo, “a imaginação autônoma das máquinas irá mudar o estatuto do imaginar”. Nem nos sonhos estaremos mais sossegados. E isso me lembra a música “Corações e mentes”, dos Titãs. Mas isso é tema para outro texto…