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Entre a vergonha e a responsabilidade

Por: Antídio Aleixo Lunelli

30/05/2026 - 07:05

Há dias em que dizer que estou na política não é motivo de orgulho. É constrangimento. Mas não deveria ser assim. Em qualquer democracia madura, a política é instrumento de transformação, espaço de debate qualificado, de construção de soluções que beneficiem a população. No Brasil, porém, ela tem sido, cada vez mais, sinônimo de desgaste, desconfiança e descrédito.

Não é percepção isolada. É um sentimento coletivo. Segundo dados recentes do Datafolha, a confiança da população nas instituições políticas permanece em níveis historicamente baixos. O Congresso Nacional, partidos e até governos enfrentam rejeição crescente — reflexo de uma sequência de escândalos – envolvendo direita, centro e esquerda -, promessas não cumpridas e uma sensação permanente de distanciamento entre quem decide e quem vive a realidade.

O cidadão comum olha e pergunta, com razão: como chegamos a esse ponto? A resposta não está em um único episódio. Está na repetição.

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Corrupção que se repete.
Incompetência que se perpetua.
Discursos que não se sustentam na prática.
Recursos públicos desperdiçados enquanto milhões ainda lutam para fechar o mês.

Não é apenas indignação moral — é uma frustração concreta. O Brasil desperdiça potencial. Santa Catarina, que poderia avançar ainda mais, também paga o preço de decisões erradas, prioridades invertidas e de uma cultura política que muitas vezes premia o erro e penaliza quem produz. Por isso, nos últimos anos, vimos tantos prefeitos presos.

Diante desse cenário, a pergunta inevitável surge — e não apenas para quem está fora: vale a pena continuar? Confesso: já me fiz essa pergunta inúmeras vezes.

Seria mais simples voltar exclusivamente à iniciativa privada, cuidar dos negócios, curtir mais a família, cuidar daquilo que depende apenas de esforço próprio e entrega resultado direto. É um caminho legítimo — e, muitas vezes, tentador.
Mas há um problema nessa escolha. Se aqueles que se incomodam com o que está errado decidem sair, o espaço não fica vazio. Ele é ocupado. E, na maioria das vezes, por quem já se adaptou ao sistema que precisa ser mudado.

É por isso que permaneço. Não por cargo. Não por poder. Não por dinheiro. Permaneço por responsabilidade. E por teimosia.
Porque desistir seria aceitar que nada pode ser diferente. Seria admitir que a política está condenada a ser o que muitos brasileiros já acreditam que ela é — um ambiente onde a ética virou exceção.

E isso não é verdade. Ou, pelo menos, não pode ser.
Uma gestão eficiente, com responsabilidade fiscal, respeito ao dinheiro público e foco em resultado, não é teoria — é realidade em muitos municípios e experiências administrativas que deram certo, como a que fizemos em Jaraguá do Sul.

É claro que há momentos de desânimo. Quem está na política e mantém senso crítico não passa ileso ao que vê. A frustração existe — e seria desonesto negar. Mas ela não pode ser maior que o compromisso.

O Brasil precisa de gente disposta a enfrentar o problema — mesmo quando isso custa desgaste, incompreensão ou ataques.
A política só muda quando muda quem está disposto a permanecer nela. Eu sigo.

Incomodado. Indignado. Muitas vezes frustrado. Mas ainda determinado o suficiente para não desistir. Porque, no fim, o maior risco não é a política decepcionar. É as pessoas de bem desistirem dela.

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Antídio Aleixo Lunelli

Antídio Aleixo Lunelli é deputado estadual pelo MDB. Fundador do grupo Lunelli, foi prefeito de Jaraguá do Sul.