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É o fim da vida simples?

Foto: Freepik

Por: Raphael Rocha Lopes

20/05/2026 - 07:05

“♫ Boy, don’t you worry, you’ll find yourself/ Follow your heart and nothing else/ And you can do this, oh, baby, if you try/ All that I want for you, my son/ Is to be satisfied/ And be a simple kind of man” (Simple man; Lynyrd Skynyrd)

Há algo profundamente melancólico em ouvir Simple Man nos dias de hoje. A música, escrita no início dos anos 1970, traz conselhos quase modestos para uma vida boa: simplicidade, honestidade, calma, amor verdadeiro, paciência. Nada grandioso. Nada performático. Apenas viver de maneira minimamente equilibrada.

O curioso é que, meio século depois, talvez essas coisas simples tenham se tornado mais difíceis do que nunca.

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Paraísos artificiais

A tecnologia está comumente associada à promessa de facilitação da vida. E, de fato, facilita muita coisa. Se o tema for internet e tudo o que veio com ela, a situação fica mais clara. Hoje se trabalha, compra, conversa, estuda, paga contas, marca consultas e resolve problemas diretamente da palma da mão. O smartphone se transformou na maior central de conveniência da história. Mas também virou uma espécie de coleira ao estilo do filme O Sobrevivente (com Arnold Schwarzenegger, de 1987), só que invisível.

Antes, o trabalho tinha endereço e horário. Hoje, está no bolso. Mensagens chegam de madrugada, grupos corporativos não silenciam, e-mails atravessam finais de semana. O expediente deixou de terminar. Em muitos casos, a própria ideia de descanso passou a causar culpa.

A tecnologia economizou tempo em tarefas práticas, mas esse tempo raramente voltou para as pessoas. Foi imediatamente ocupado por mais produtividade, mais demanda, mais urgência e mais estímulos. Nunca a humanidade esteve tão ocupada e cansada.

Há uma estafa mental coletiva silenciosa em curso. Não necessariamente dramática ou visível. Constante, porém. Uma sensação de exaustão difusa que acompanha milhões de pessoas todos os dias. O cérebro humano não foi projetado para lidar com tamanha quantidade de informação, comparação social, indignação política e disponibilidade contínua.

Antes, o ócio era parte natural da vida. Hoje, tornou-se um ato de resistência. Ficar sem fazer nada parece errado. Não responder imediatamente parece desinteresse. Desconectar-se parece improdutividade. Ou coisas de multimilionários.

No meio desse turbilhão, as coisas essenciais começam a perder espaço. Pais fisicamente presentes, e mentalmente presos à tela. Amigos reunidos sem conversar. Crianças competindo com notificações pela atenção dos adultos. Famílias dividindo o mesmo sofá e cada um em universo digital diferente. A tecnologia aproximou distâncias geográficas e criou distâncias emocionais curiosas.

Sempre alguém versus alguém

Há, ainda, outro elemento que tornou o cotidiano mais pesado: a polarização permanente. Discussões políticas ideológicas invadiram praticamente todos os espaços da convivência humana. Relações familiares, amizades, ambientes profissionais e até entretenimento passaram a ser filtrados por disputas identitárias e narrativas extremadas. A internet transformou divergência em espetáculo e indignação em combustível algorítmico. E viver em estado constante de conflito emocional também cansa.

Talvez o maior paradoxo da era digital é justamente o fato de que foram criadas ferramentas para simplificar a vida e que acabaram produzindo uma sociedade emocionalmente mais complexa, acelerada e fragmentada.

A simplicidade ficou sofisticadamente difícil.

A música tema de hoje parece quase um recado vindo de um mundo distante, onde ainda era possível sentar, conversar, ouvir sem interrupções e construir relações sem mediação permanente de telas.

O problema, como digo sempre, está menos nas ferramentas do que na incapacidade coletiva de estabelecer limites saudáveis para elas.

Está cada vez mais raro conseguir tempo e silêncio, e uma vida minimamente simples em um mundo que parece fazer questão de complicar tudo.

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Raphael Rocha Lopes

Advogado, autor, professor e palestrante focado na transformação digital da sociedade. Especializado em Direito Civil e atuante no Direito Digital e Empresarial, Raphael Rocha Lopes versa sobre as consequências da transformação digital no comportamento da sociedade e no direito digital. É professor da Faculdade de Direito do Centro Universitário Católica Santa Catarina e membro da Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs.