A passagem do senador Flávio Bolsonaro por Santa Catarina, no último fim de semana, produziu um daqueles movimentos políticos capazes de alterar o humor de uma pré-campanha inteira. Entre sexta-feira e sábado, os liberais catarinenses promoveram uma mobilização de peso em Florianópolis, reunindo cerca de cinco mil pessoas e consolidando, de maneira praticamente oficial, o desenho do projeto majoritário do PL para 2026 no Estado.
O evento não serviu apenas para impulsionar a pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Na prática, também confirmou o quarteto que deve liderar o palanque conservador catarinense: o governador Jorginho Mello à reeleição; Adriano Silva, do Novo, como pré-candidato a vice; além de Carol De Toni e Carlos Bolsonaro para o Senado.
Foi um ato grandioso, de forte repercussão política e simbólica. O PL saiu energizado. O entorno de Jorginho Mello considerou o encontro uma demonstração inequívoca de musculatura eleitoral e alinhamento com o bolsonarismo-raiz. O ambiente era de euforia.
Tempo imprevisível
Mas a política, especialmente em Brasília, costuma impor mudanças bruscas de temperatura.
Três dias depois da mobilização catarinense, estourou o caso que passou a dominar as conversas nos bastidores políticos do país: o vazamento de uma mensagem de Flávio Bolsonaro, direcionada ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, envolvendo cobrança relacionada à transferência de recursos do Banco Master para a produção de um filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Parceria
O conteúdo do diálogo chamou atenção não apenas pelo teor, mas pela intimidade revelada entre o senador e Vorcaro — personagem que, nos bastidores de Brasília, passou a ser tratado como o homem que “comprou” a capital federal, em referência à sua influência crescente em círculos políticos e empresariais.
Respingos imediatos
E em Santa Catarina o impacto teve efeito ainda mais sensível justamente porque a mobilização liberal ainda estava “quente”. O que era celebração virou desconforto. Uma verdadeira ducha de água fria sobre o ambiente construído pelo PL no fim de semana anterior.
Zema tensiona
Foi nesse contexto que surgiu outro componente explosivo: a manifestação do ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, presidenciável do Novo.
Na moleira
De forma considerada precipitada e agressiva por integrantes da centro-direita, Zema fez declarações duras contra Flávio Bolsonaro. O tom repercutiu muito mal entre aliados do PL e abriu uma fissura delicada justamente em Santa Catarina, onde o Novo ocupa posição estratégica dentro do projeto de reeleição de Jorginho Mello. Afinal, o partido indicou Adriano Silva como pré-candidato a vice na chapa governista.
Saia justíssima
Enquanto Zema endurecia publicamente contra Flávio Bolsonaro, Adriano Silva — correligionário do mineiro — havia acabado de participar, ainda que discretamente, do grande ato liberal em Florianópolis. O ex-prefeito de Joinville percebeu rapidamente o tamanho da turbulência e adotou o caminho politicamente mais prudente: mergulhou. Silêncio absoluto. No que fez muito bem.
O recado de Caiado
O episódio produziu, porém, outro movimento importante no campo conservador. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, também presidenciável da direita, repreendeu publicamente Romeu Zema. Caiado até cobrou esclarecimentos de Flávio Bolsonaro, mas tratou de colocar um freio na escalada de tensão. E o fez com foco estratégico.
Objetivo maior
Segundo Caiado, eventuais vulnerabilidades individuais não podem fragmentar a direita brasileira, porque o objetivo maior do campo conservador seria derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o PT e a esquerda em 2026. A fala teve peso político relevante.
PSD alinhado
Principalmente porque Caiado terá palanque em Santa Catarina oferecido pelo ex-prefeito de Chapecó, João Rodrigues, do PSD, adversário direto de Jorginho Mello na disputa estadual.
Ou seja: paradoxalmente, foi justamente um aliado indireto da oposição catarinense quem saiu em defesa da unidade da direita e ajudou a reduzir danos para o PL.
Novo desconforto
A situação deixou o Novo catarinense numa posição especialmente delicada. A direção estadual e a executiva nacional do partido — ambas fortemente influenciadas por lideranças catarinenses — trataram de fazer reparos à fala de Zema, tanto pela forma quanto pelo conteúdo.
Açodamento
Nos bastidores, a avaliação predominante é que o governador mineiro errou ao personalizar o ataque num momento em que a centro-direita tenta construir unidade nacional para enfrentar o lulopetismo. E há outro detalhe importante: Santa Catarina virou território estratégico para todos os presidenciáveis conservadores.
Posição de destaque
Depois de receber Flávio Bolsonaro no último fim de semana, o estado agora se prepara para recepcionar justamente os outros dois presidenciáveis da direita: Romeu Zema e Ronaldo Caiado.
Agendas
Zema retorna a Santa Catarina neste domingo, permanecendo até terça-feira. Terá agendas na Grande Florianópolis, no Litoral Norte e no Vale do Itajaí. E deverá ser acompanhado justamente por Adriano Silva, hoje peça-chave da composição com Jorginho Mello.
Empresariado
Já Caiado também desembarca no Estado para participar do Conexa 26, iniciativa da Associação Comercial e Industrial de Florianópolis. No painel “O Brasil do futuro que queremos”, Caiado e Zema estarão lado a lado. Um encontro que ganhou contornos ainda mais políticos depois do atrito provocado pelas declarações do governador mineiro.
SC no circuito
O fato concreto é que Santa Catarina entrou definitivamente no epicentro da disputa presidencial da centro-direita. Recebeu Flávio Bolsonaro na semana passada. Agora receberá Ronaldo Caiado e Romeu Zema. E acompanha, em tempo real, os efeitos políticos do caso Master e seus reflexos sobre as alianças estaduais.
Momento delicado
Porque, no fim das contas, o episódio da semana não mexe apenas com Brasília. Ele produz consequências diretas sobre o tabuleiro eleitoral catarinense, especialmente nas candidaturas majoritárias já colocadas para 2026.