As previsões são claras — e preocupantes. Há mais de 80% de probabilidade de formação do El Niño entre junho e agosto em Santa Catarina. Com ele, vêm chuvas mais frequentes, mais intensas, começando no inverno e ganhando força na primavera. Temporais, vendavais, granizo. E, junto, o risco elevado de enchentes e deslizamentos.
A Defesa Civil já está em alerta. Santa Catarina conhece bem esse cenário. Em 1983, enchentes devastadoras deixaram dezenas de mortos. Em 2008, a tragédia foi ainda maior: 135 vidas perdidas. Números que não podem ser esquecidos — justamente para não se repetirem.
Mais uma vez, estamos diante de um problema anunciado. E mais uma vez corremos o risco de repetir o erro de sempre: agir depois, quando o certo é agir antes. Nos últimos dez anos, os desastres climáticos consumiram bilhões de reais dos cofres públicos. Dinheiro do contribuinte que poderia ter sido poupado com planejamento. Mas há um dado ainda mais grave: apenas 20% dos municípios catarinenses cumprem integralmente a lei de prevenção a desastres. Ou seja: 80% das cidades estão irregulares.
Não é falta de recurso. É falta de prioridade. É falta de gestão. Falo com a experiência de quem foi prefeito de Jaraguá do Sul. Aqui, fizemos o básico — e fizemos bem feito: mapeamento de áreas de risco, limpeza de rios e encostas, troca de tubulações, modernização da drenagem. Criamos o Parque Via Verde, hoje referência no Estado. E avançamos. Mas esse trabalho precisa ser mantido. E, com uma lei de minha autoria, abrimos caminho para que outros municípios implantem parques alagáveis em Santa Catarina — estruturas que absorvem a água da chuva e reduzem drasticamente os impactos das enchentes.
É preciso dizer com clareza: não existe controle sobre a força da natureza. Mas existe, sim, responsabilidade sobre os seus efeitos.
Prevenção não é opção. É obrigação. Não podemos mais aceitar a cultura do “deixa acontecer e depois socorre”.
O brasileiro já paga caro demais em impostos. Não pode continuar pagando duas vezes — primeiro no bolso, depois com sofrimento.
E essa responsabilidade não é só do poder público. A comunidade também precisa fazer a sua parte: cobrar, fiscalizar, mas também agir com consciência. Não jogar lixo nos rios. Não ocupar áreas de risco. Preservar o meio ambiente.
Santa Catarina construiu sua história com trabalho, responsabilidade e iniciativa. Agora, precisa aplicar esses mesmos valores na proteção da vida. Não basta ser referência em desenvolvimento econômico. Precisamos ser referência em prevenção. Porque o futuro é implacável com quem não se prepara. E o nosso povo merece mais do que discursos e vídeos de rede social depois da tragédia. Merece ação antes dela acontecer.