Pesquisadores brasileiros descobriram que baixas doses de antibiótico podem ajudar no tratamento de ansiedade e ataques de pânico. O estudo foi publicado na revista científica Translational Psychiatry e traz novas perspectivas para a psiquiatria.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.
Minociclina pode ter efeito semelhante ao clonazepam
O estudo identificou que a minociclina, um antibiótico já utilizado na medicina, pode apresentar efeito semelhante ao clonazepam — conhecido comercialmente como Rivotril — um dos medicamentos mais prescritos para transtorno do pânico.
Os testes foram realizados em animais e também em humanos, com resultados preliminares positivos, indicando redução significativa dos sintomas.
Redução da ansiedade e inflamação no organismo
Durante a pesquisa, cientistas observaram que pacientes que utilizaram minociclina apresentaram:
- Redução de citocinas pró-inflamatórias, como IL-6 e TNFα
- Aumento da IL-10, associada à resposta anti-inflamatória
- Diminuição dos sintomas de ansiedade e pânico
Esses resultados reforçam a relação entre inflamação no organismo e transtornos psiquiátricos, um campo crescente dentro da neurociência.
Como foi realizado o estudo
A pesquisa analisou 49 pacientes diagnosticados com transtorno do pânico. Eles foram submetidos à inalação controlada de dióxido de carbono (CO₂), técnica utilizada para induzir sintomas semelhantes aos de um ataque de pânico em ambiente seguro.
Após sete dias de tratamento com minociclina ou clonazepam, os participantes foram novamente avaliados por especialistas.
Os resultados mostraram que a minociclina reduziu a intensidade das crises, de forma comparável ao medicamento tradicional.
Doses menores reduzem riscos
Outro ponto relevante é que as doses de antibiótico utilizadas no estudo foram inferiores às usadas para tratar infecções bacterianas, o que pode diminuir o risco de resistência bacteriana.
Segundo os pesquisadores, isso torna o uso potencialmente mais seguro em contextos controlados.
Como a minociclina atua no cérebro
Diferente do clonazepam, que atua diretamente nos neurotransmissores como o GABA, a minociclina apresenta efeito anti-inflamatório no sistema nervoso, especialmente nas micróglias — células relacionadas à resposta inflamatória no cérebro.
Essa ação pode explicar a melhora nos sintomas de ansiedade e pânico, abrindo caminho para novas abordagens terapêuticas.
Nova alternativa para quem não responde ao tratamento tradicional
Os pesquisadores destacam que cerca de 50% dos pacientes não respondem adequadamente ao tratamento com clonazepam. Nesse cenário, a minociclina surge como uma possível alternativa.
Além disso, o clonazepam pode causar efeitos colaterais como:
- Dependência
- Redução da capacidade de decisão
- Alterações na frequência cardíaca e respiratória
Próximos passos da pesquisa
Apesar dos resultados promissores, a utilização da minociclina no tratamento de transtornos de ansiedade ainda depende de novos estudos clínicos.
As próximas etapas incluem:
- Testes com maior número de pacientes
- Avaliação de diferentes dosagens
- Monitoramento de possíveis efeitos colaterais
Avanço na ciência e na saúde mental
O estudo abre novas possibilidades para o tratamento de transtornos psiquiátricos, especialmente aqueles associados à inflamação no cérebro.
A descoberta reforça a importância da pesquisa científica brasileira no desenvolvimento de soluções inovadoras para a saúde mental.